A escassez de financiamento para estúdios de jogos na Europa, intensificada após a pandemia de COVID-19, encontrou uma nova resposta com o lançamento da Gamevestor. Esta plataforma de crowdfunding francesa surge para conectar desenvolvedores a investidores, oferecendo um modelo inovador baseado em royalties e mitigando riscos no setor.

O mercado europeu de jogos, apesar de ter crescido 4% em 2024, atingindo 26,8 bilhões de euros em receita, com 90% proveniente de canais digitais, enfrenta desafios persistentes. Em 2023, a receita dos próprios desenvolvedores europeus teve uma ligeira queda, acompanhada por relatos de demissões e fechamentos de estúdios, evidenciando um cenário de maior aversão a riscos pós-pandemia, mesmo com capital disponível.

Foi nesse contexto que Ivan Marchand, veterano de empresas como Amazon e Google, e Arthur Van Clap Ceulen, ex-Ubisoft, conceberam a Gamevestor. Após enfrentarem dificuldades para financiar seu próprio estúdio, perceberam a necessidade de uma solução que transformasse jogadores em investidores, focando exclusivamente em projetos de games.

Gamevestor: um modelo inovador de financiamento e suporte

A Gamevestor se posiciona como uma plataforma exclusiva para o setor de jogos, buscando preencher a lacuna de financiamento para estúdios que necessitam de 100 mil a 5 milhões de euros. O grande diferencial reside no modelo de investimento: os consumidores podem apoiar projetos da forma tradicional, recebendo uma cópia do jogo, ou investir a partir de 100 euros em troca de uma fatia da receita futura do jogo, operando com um modelo de royalties.

A plataforma francesa garante um processo rigoroso de curadoria. Todos os projetos são minuciosamente avaliados por uma equipe de especialistas, e os estúdios selecionados recebem suporte personalizado, com vagas limitadas para assegurar a qualidade e a atenção dedicada. Recentemente, a Gamevestor anunciou a captação de 1 milhão de euros em financiamento, valor destinado principalmente a cobrir os custos regulatórios, construir a plataforma e garantir sua operação inicial.

Mitigando riscos e impulsionando o setor

Para além do financiamento, a Gamevestor oferece apoio significativo em marketing, auxiliando os estúdios a atrair tanto jogadores quanto investidores. A colaboração é próxima, com a plataforma investindo dinheiro real em marketing para os jogos que seleciona. Este investimento inicial visa dar sustentabilidade à Gamevestor por até dois anos, com a expectativa de equilibrar as finanças através de uma taxa adicional sobre a receita dos jogos bem-sucedidos.

As campanhas na Gamevestor, com duração de 45 dias, são estruturadas com “objetivos” que funcionam como metas adicionais. Uma vez que o primeiro objetivo é alcançado, a campanha é considerada um sucesso. Um recurso notável é a participação de investidores anjo, que podem injetar capital dez dias antes do lançamento público da campanha, gerando tração e confiança.

A distribuição dos fundos aos desenvolvedores também segue um modelo de mitigação de riscos. O dinheiro não é entregue de uma só vez, mas em etapas, condicionado ao cumprimento de marcos de desenvolvimento, similar ao que ocorre em acordos com publishers. Essa abordagem, segundo Marchand, é bem recebida pelos estúdios e oferece maior segurança aos investidores, garantindo que o capital seja utilizado de forma progressiva e alinhada ao progresso do projeto.

A iniciativa da Gamevestor reflete uma tendência de adaptação e inovação no financiamento de jogos. Enquanto o crowdfunding no setor já teve seus altos e baixos, com anos de grande sucesso como 2012 e 2015, a demanda por apoiar novos jogos permanece forte, como evidenciado pelo recorde de projetos de jogos bem-sucedidos no Kickstarter em 2024. Com seu modelo focado e robusto, a Gamevestor busca não apenas financiar jogos, mas também redefinir a relação entre criadores e sua comunidade de apoio.