A ambiciosa tentativa do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, de assumir o controle da vasta indústria petrolífera da Venezuela e derrubar Nicolás Maduro, expôs mais a vulnerabilidade de sua própria política externa do que a projeção de poder internacional. Em vez de restaurar o setor de petróleo venezuelano, essa intervenção explícita pode deflagrar uma instabilidade ainda maior na região.
Essa estratégia, baseada na premissa de que Washington poderia “administrar” um país do tamanho do Iraque, ignora a complexidade histórica e social da nação sul-americana. A política de pressão máxima, incluindo sanções econômicas severas, visava forçar uma mudança de regime e garantir o acesso a uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Contudo, os resultados foram aquém do esperado, aprofundando a crise humanitária e econômica venezuelana.
A situação atual levanta questões críticas sobre a eficácia de intervenções externas em estados petroleiros e o verdadeiro custo geopolítico de tais ações. A busca por recursos energéticos, muitas vezes disfarçada de promoção da democracia, frequentemente resulta em cenários imprevisíveis e na polarização de forças regionais, conforme observa a análise do Project Syndicate.
A complexa teia geopolítica do petróleo
A Venezuela, detentora das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, sempre esteve no centro das atenções geopolíticas. A PDVSA, sua estatal petrolífera, outrora um gigante da produção, viu sua capacidade declinar drasticamente devido à má gestão, corrupção e, mais recentemente, às sanções impostas pelos Estados Unidos. Essas sanções, iniciadas em 2017 e intensificadas em 2019, miravam a receita do petróleo para pressionar o governo Maduro.
O impacto das restrições americanas sobre o setor de energia venezuelano foi profundo. A produção de petróleo, que já foi de mais de 3 milhões de barris por dia, caiu para níveis historicamente baixos, por vezes abaixo de 500 mil barris diários. Em dezembro de 2025, a produção de petróleo bruto na Venezuela diminuiu para 1120 mil barris por dia. Essa queda não apenas privou o regime de recursos essenciais, mas também devastou a economia local, agravando a escassez de bens básicos e a hiperinflação.
Apesar das promessas de Trump de “restaurar” a indústria petrolífera venezuelana sob uma nova liderança, a estratégia de “agarra de recursos” foi vista por muitos analistas como uma tentativa de controlar ativos estratégicos. Essa percepção gerou resistência interna e externa, complicando ainda mais qualquer transição política e econômica. A instabilidade resultante afeta não apenas a Venezuela, mas toda a bacia do Caribe e a América Latina.
Impactos e a vulnerabilidade da política externa
A política de Trump em relação à Venezuela, embora assertiva, revelou uma profunda falha na compreensão das dinâmicas regionais e da resiliência do regime. Ao invés de isolar Maduro, as sanções, por vezes, fortaleceram sua narrativa anti-imperialista e o impulsionaram a buscar apoio em outros parceiros, como Rússia, China e Irã, complicando a rede de alianças globais e regionais.
A remoção forçada de um líder, mesmo impopular, raramente resulta em estabilidade democrática duradoura sem um plano robusto de transição e apoio internacional genuíno. A experiência histórica de intervenções em outros petroestados, como o Iraque, serve como um lembrete sombrio das consequências não intencionais e de longo prazo. A instabilidade política e a fragmentação social são riscos inerentes a essas abordagens.
Como apontado por Terry Lynn Karl, da Universidade de Stanford, em análise para o Project Syndicate, a tentativa de “capturar” Maduro e controlar o petróleo venezuelano expôs a vulnerabilidade política do próprio presidente Trump. Sua política externa, focada em projeção de força, acabou por destacar as fragilidades internas e a erosão de sua influência, tanto doméstica quanto internacionalmente. Isso sublinha a complexidade de lidar com estados petroleiros.
O dilema do petroestado de Trump na Venezuela é um estudo de caso sobre os limites do poder unilateral e as armadilhas da diplomacia coercitiva. O caminho para a recuperação venezuelana exige uma abordagem multifacetada que priorize a ajuda humanitária, o diálogo político e a reconstrução econômica, em vez de confrontos diretos que apenas aprofundam a crise. A estabilidade a longo prazo dependerá de soluções internas, com apoio internacional construtivo.










