Partículas plásticas minúsculas, espalhadas pelos oceanos, estão silenciosamente enfraquecendo uma das defesas climáticas mais poderosas da Terra. Novas pesquisas sugerem que os microplásticos estão prejudicando a vida marinha que ajuda os oceanos a absorver dióxido de carbono, enquanto também liberam gases de efeito estufa à medida que se decompõem, impactando diretamente a capacidade do oceano de regular a temperatura global.
Esses fragmentos, menores que cinco milímetros, tornaram-se onipresentes, detectados nas profundezas oceânicas, rios, lagos, ar, solo, gelo do Ártico e até mesmo no corpo humano. Sua presença generalizada representa riscos ambientais crescentes, transportando substâncias tóxicas que são consumidas pela vida selvagem e por pessoas, contribuindo para doenças e a desregulação ecossistêmica.
Apesar da urgência das mudanças climáticas, a conexão entre microplásticos e sistemas climáticos recebeu pouca atenção, especialmente em ambientes marinhos. Um estudo recente, publicado no Journal of Hazardous Materials: Plastics, destaca que a poluição plástica é um “motor oculto do aquecimento global”. Essa pesquisa aponta que os microplásticos influenciam processos biogeoquímicos e contribuem diretamente para as emissões de gases de efeito estufa.
A complexa teia da bomba biológica de carbono
Nos ecossistemas oceânicos, os microplásticos interferem no armazenamento natural de carbono ao afetar o fitoplâncton e o zooplâncton, organismos essenciais para o ciclo do carbono. O fitoplâncton realiza fotossíntese, absorvendo CO₂, e o zooplâncton, ao consumi-lo e depois afundar ou defecar, transporta o carbono para o fundo do mar, um processo vital conhecido como “bomba biológica de carbono”.
A pesquisa, liderada pelo Dr. Ihsanullah Obaidullah, professor associado de Tecnologias Integradas de Processamento de Água na Universidade de Sharjah, enfatiza que os microplásticos “interferem nesse processo ao reduzir a fotossíntese do fitoplâncton e prejudicar o metabolismo do zooplâncton”. Isso significa que essas partículas plásticas intoxicam e estressam organismos fundamentais, diminuindo sua eficiência e a capacidade do oceano de absorver CO₂.
Além dos impactos diretos na micro-vida, a poluição plástica marinha atinge a biodiversidade em larga escala. Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), de 2023, aponta que microplásticos têm efeitos tóxicos e mecânicos quando ingeridos pela vida marinha, levando a problemas como redução da ingestão de alimentos e alterações genéticas. O WWF alertou em 2023 que a poluição plástica quadruplicará até 2050, impactando 88% das espécies marinhas estudadas.
Plastisfera e a liberação de gases de efeito estufa
Outro fator crítico é a “plastisfera”, uma comunidade de microrganismos que se forma na superfície dos microplásticos. Essa camada microbiana contribui para a produção de gases de efeito estufa através de sua complexa atividade biológica.
Adicionalmente, os próprios microplásticos liberam metano e dióxido de carbono à medida que se degradam, amplificando ainda mais seu impacto no sistema climático. Dr. Obaidullah descreveu a pesquisa como uma “perspectiva colaborativa”, envolvendo cientistas de diversas nações, e fez um apelo por “ação global urgente para enfrentar essa ameaça emergente”.
A dimensão do problema é alarmante. Os oceanos do mundo estão poluídos por cerca de 171 trilhões de partículas de plástico, um volume que tem crescido exponencialmente desde 2005. No Brasil, o cenário é igualmente preocupante, com o país despejando aproximadamente 1,3 milhão de toneladas de resíduos plásticos no oceano anualmente, colocando-o entre os 10 maiores poluidores globais, segundo um estudo da Oceana de 2024.
Os oceanos são o maior sumidouro de carbono da Terra, absorvendo cerca de 30% das emissões antropogênicas de CO₂ entre o início da revolução industrial e meados da década de 1990. Contudo, a poluição plástica, com seus trilhões de partículas e uma taxa de duplicação a cada seis anos, mina essa “proteção natural contra as mudanças climáticas”.
Combater a poluição plástica não é apenas uma questão de saúde ambiental marinha, mas uma parte intrínseca da luta contra o aquecimento global, exigindo uma reavaliação urgente das estratégias de gestão de resíduos e produção de plásticos. A inação pode levar a um futuro onde a capacidade regulatória do oceano estará irremediavelmente comprometida, com consequências severas para o clima global e a vida no planeta.










