A crença de que a cannabis oferece uma solução eficaz para a dor neuropática crônica é amplamente difundida, mas uma recente e robusta revisão sistemática da Cochrane, publicada em 19 de janeiro de 2026, aponta para a falta de evidências substanciais que sustentem essa afirmação.
Pacientes que sofrem de dor neuropática, uma condição debilitante causada por danos nos nervos, frequentemente buscam alternativas aos tratamentos convencionais. Estes, muitas vezes, oferecem alívio limitado e apresentam efeitos adversos que superam os benefícios para alguns indivíduos. Essa busca tem impulsionado o interesse em terapias baseadas em cannabis, desde a planta in natura até extratos específicos como o tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD).
Apesar da crescente popularidade e da percepção pública de sua eficácia, a análise aprofundada de mais de 20 ensaios clínicos com mais de 2.100 adultos, comparando produtos de cannabis com placebos, revelou que os benefícios relatados são inconsistentes e não atingem um limiar clinicamente significativo.
A avaliação das evidências e os resultados
Para avaliar a real eficácia dos tratamentos, pesquisadores analisaram 21 ensaios clínicos, que duraram de duas a 26 semanas, nos quais medicamentos à base de cannabis foram comparados a placebos. Os produtos estudados foram categorizados em três grupos principais: aqueles com predominância de THC, o componente psicoativo da cannabis; aqueles compostos principalmente por CBD, um composto não intoxicante; e um terceiro grupo com produtos balanceados, contendo quantidades semelhantes de THC e CBD.
Os resultados da revisão da Cochrane, conforme divulgado pela ScienceDaily, indicam que não há evidências de alta qualidade de que os medicamentos à base de cannabis, em qualquer uma das categorias, reduzam a dor neuropática de forma mais eficaz do que o placebo. Embora alguns participantes que usaram combinações de THC e CBD tenham relatado pequenas melhorias, estas foram consideradas muito pequenas para ter um impacto real na vida diária dos pacientes.
A segurança dos tratamentos também levanta preocupações. Informações sobre efeitos adversos não foram consistentemente relatadas nos estudos, dificultando conclusões firmes. No entanto, produtos contendo THC foram associados a um aumento nos relatos de tontura e sonolência, e uma maior taxa de abandono do tratamento devido a esses efeitos colaterais.
A busca por tratamentos e o futuro da pesquisa
A dor neuropática crônica, que afeta entre 6% e 10% da população, é um desafio terapêutico. As opções farmacológicas atuais proporcionam alívio substancial para apenas uma parcela dos pacientes, e os efeitos adversos frequentemente superam os benefícios. Essa lacuna impulsiona a busca por alternativas, e a cannabis tem sido historicamente utilizada para alívio da dor.
Winfried Häuser, médico e autor principal da revisão, da Technische Universität München, enfatiza a necessidade urgente de estudos maiores e mais bem desenhados. Ele sugere que essas pesquisas devem ter duração mínima de 12 semanas e incluir pacientes com comorbidades físicas e de saúde mental para uma compreensão completa dos benefícios e riscos dos medicamentos à base de cannabis. A qualidade da maioria dos ensaios atuais é insuficiente para tirar conclusões definitivas.
Diante do panorama atual, a evidência sobre a eficácia da cannabis para dor neuropática permanece fraca e incerta. É crucial que a comunidade científica invista em pesquisas de alta qualidade antes que esses medicamentos possam ser recomendados amplamente para pessoas que vivem com dor neuropática crônica. A cautela é fundamental para garantir que os pacientes recebam tratamentos baseados em ciência sólida.







