A relação entre câncer, ansiedade e insônia é mais profunda do que se imaginava, transcendendo os efeitos psicológicos óbvios de um diagnóstico. Pesquisas recentes indicam que o próprio câncer pode desequilibrar o relógio biológico do cérebro, alterando os ritmos diários dos hormônios do estresse e impactando diretamente a qualidade de vida e a resposta imune dos pacientes.

Cientistas do Centro de Câncer do Cold Spring Harbor Laboratory descobriram que o câncer de mama é capaz de desorganizar o relógio interno do cérebro quase imediatamente após seu surgimento. Em estudos com camundongos, tumores achatavam o ritmo natural diário dos hormônios do estresse, interrompendo o feedback cérebro-corpo que regula o estresse, o sono e a imunidade.

Essa desregulação precoce do sistema de estresse cerebral é notável. Em camundongos, as alterações nos ritmos hormonais do estresse eram visíveis antes mesmo que os tumores pudessem ser fisicamente detectados, em apenas três dias após a indução do câncer.

Como o câncer desorganiza o relógio biológico

O cérebro atua como um sensor sofisticado do que ocorre no corpo, mas depende de um equilíbrio delicado. Neurônios precisam estar ativos ou inativos nos momentos certos; qualquer descompasso pode alterar a função cerebral de maneiras abrangentes, como explica Jeremy Borniger, professor assistente do Cold Spring Harbor Laboratory.

Essa balança é mantida por padrões de atividade cuidadosamente cronometrados. Quando esses padrões se desviam, mesmo que ligeiramente, a capacidade do cérebro de regular o corpo é interrompida. O câncer interfere nesses ritmos diurnos normais, particularmente na liberação de hormônios do estresse.

Em humanos, o hormônio cortisol, que normalmente sobe e desce em horários previsíveis ao longo do dia, tem seus níveis achatados pela presença de tumores. Essa perda de ritmo está associada a uma pior qualidade de vida e maior mortalidade em modelos animais.

Os ritmos diários são regulados pelo o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), uma rede de feedback que envolve o hipotálamo, a glândula pituitária e as glândulas adrenais. A disfunção desse eixo é conhecida por contribuir para problemas relacionados ao estresse, como insônia e ansiedade, comuns em pacientes com câncer.

Restaurando o ritmo cerebral para combater o câncer

A descoberta mais surpreendente, detalhada em estudo publicado pela ScienceDaily em janeiro de 2026, é que a restauração do ritmo dia-noite correto em neurônios cerebrais específicos reverteu os ciclos hormonais do estresse. Isso levou a um influxo de células imunes anticancerígenas nos tumores e à sua redução significativa, sem o uso de medicamentos anticâncer.

A equipe de Borniger está investigando como os tumores perturbam os ritmos corporais. Essa linha de pesquisa pode, eventualmente, fortalecer os tratamentos existentes contra o câncer. A ideia central é otimizar a fisiologia do paciente para que o próprio corpo combata a doença, potencializando a eficácia das terapias atuais e reduzindo a toxicidade.

Estudos mostram que distúrbios do ciclo circadiano estão associados a um maior risco de desenvolvimento de câncer, e que a cronoterapia – a administração de tratamentos em horários específicos – pode melhorar a eficácia. Além disso, a prevalência de ansiedade e insônia em pacientes oncológicos é alta, com até 95% relatando distúrbios do sono, conforme diretrizes da European Society for Medical Oncology (ESMO). Pesquisas publicadas na SciELO também apontam que fadiga e insônia são sintomas frequentes em pacientes oncológicos.

A compreensão de como o câncer manipula o cérebro para desregular os ritmos circadianos abre caminho para abordagens terapêuticas inovadoras. Ao invés de apenas combater o tumor, focar na saúde fisiológica e neurológica do paciente pode se tornar uma estratégia poderosa, melhorando não só o bem-estar, mas também a capacidade do organismo de lutar contra a doença.