A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos em 3 de janeiro de 2026, sob acusações de narcotráfico, expõe de forma crua a política externa de Donald Trump, que abandonou as justificativas idealistas para focar abertamente no controle dos recursos, especialmente o petróleo venezuelano. A ação, que danifica o sistema jurídico internacional, revela uma abordagem unilateralista que prioriza interesses estratégicos americanos.

Este episódio ressalta uma guinada notável na diplomacia de Washington. Enquanto administrações anteriores frequentemente invocavam a defesa dos direitos humanos ou a promoção da democracia para justificar intervenções militares no exterior, Trump removeu essa máscara. Segundo análise de Adekeye Adebajo em um artigo para o Project Syndicate em 19 de janeiro de 2026, a Europa e o Sul Global agora confrontam um comportamento já familiar a muitos.

O próprio Trump, em diversas declarações, deixou claro que a missão americana na Venezuela visa apossar-se do controle das maiores reservas de petróleo do mundo, estimadas em cerca de 303 bilhões de barris, superando potências como Arábia Saudita e Irã. Essa riqueza natural coloca a Venezuela no centro das disputas geopolíticas, um padrão histórico para a região.

O desmascaramento do imperialismo americano Trump

A intervenção na Venezuela, com a captura de Maduro e sua transferência para Nova York para enfrentar acusações de narcoterrorismo, é um capítulo recente de um longo histórico de intromissões dos EUA na América Latina. Desde a Doutrina Monroe em 1823, os Estados Unidos têm visto o hemisfério ocidental como sua esfera de influência, intervindo em países como Guatemala (1954), Cuba (1961) e Panamá (1989), muitas vezes sob o pretexto de combater o comunismo ou o tráfico de drogas, mas com interesses econômicos e estratégicos subjacentes.

O Departamento de Justiça dos EUA, inclusive, recuou em sua acusação inicial de que Maduro liderava o “Cartel de Los Soles”. A nova peça da denúncia, apresentada após a captura, suavizou a linguagem, descrevendo o termo como uma referência a um “sistema de clientelismo” e “cultura de corrupção” alimentados pelo narcotráfico, sem apontar Maduro como chefe direto do suposto cartel. Essa mudança revela a fragilidade das justificativas “idealistas” quando confrontadas com a realidade dos interesses.

Erosão do direito internacional e o pragmatismo petrolífero

A abordagem de Trump reflete um unilateralismo que desafia abertamente o sistema legal internacional e a ordem multilateral estabelecida após a Segunda Guerra Mundial. Líderes como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticaram duramente as ações dos EUA, alertando para a erosão do direito internacional quando o uso da força se torna prática recorrente. Especialistas em direito internacional, como Lucas Carlos Lima da UFMG, lembram que o uso da força entre Estados é admitido apenas em legítima defesa ou com autorização do Conselho de Segurança da ONU.

A desconsideração pelas normas internacionais, como a soberania dos Estados, levanta preocupações globais, com especialistas apontando que tal conduta pode encorajar outras potências a justificar ações expansionistas. Contudo, o pragmatismo de Trump já gerou resultados concretos: em 13 de janeiro, a Casa Branca anunciou um acordo energético de US$ 500 bilhões com a Venezuela, com 31 milhões de barris de petróleo “já a caminho dos EUA para serem vendidos”.

A política externa de Donald Trump na Venezuela, marcada pela captura de seu líder e a subsequente formalização de acordos petrolíferos, não é apenas um movimento geopolítico, mas um indicativo de uma nova era onde a retórica idealista é substituída por uma busca explícita por recursos. Este cenário desafia a estabilidade do direito internacional e força uma reavaliação sobre os limites da soberania em um mundo crescentemente pragmático. As implicações de longo prazo para a América Latina e a ordem global ainda estão por ser plenamente compreendidas, mas o precedente é inegável.