O Fórum Econômico Mundial se reúne em Davos anualmente sob a promessa de diálogo e cooperação global. Contudo, a edição de 2026, com o tema “Um Espírito de Diálogo”, confronta-se com uma realidade geopolítica complexa, marcada por tensões e ações unilaterais que questionam a eficácia de tais encontros.
A economista Mariana Mazzucato, em artigo para o Project Syndicate, aponta um descompasso notável entre as discussões em Davos e a emergente desordem global. Ela argumenta que, sem condicionalidades vinculativas e estruturas de responsabilização, os discursos sobre capitalismo de stakeholders permanecem um mero “teatro”.
Este cenário levanta questões cruciais sobre a capacidade do Fórum Econômico Mundial de realmente influenciar as grandes potências e os rumos da economia mundial. A distância entre a retórica do diálogo e as decisões que moldam a história é cada vez mais evidente, especialmente quando guerras e terrorismo são listados como os maiores riscos para 2025.
A retórica de Davos versus a realidade geopolítica
As discussões em Davos frequentemente abordam temas como desenvolvimento sustentável e negócios com propósito, buscando um capitalismo de stakeholders. No entanto, a execução dessas ideias esbarra em interesses nacionais e disputas de poder que extrapolam os salões de conferência.
A presença esperada do presidente Donald Trump na reunião de 2026, por exemplo, destaca a discrepância entre a agenda de consenso do Fórum e a política de “America First”, que levou a tarifas comerciais e intervenções militares na Venezuela.
Relatórios do próprio Fórum, como o “Global Risks Report 2026”, indicam ameaças digitais, vulnerabilidades da IA e a necessidade de cooperação ampliada. Contudo, o contexto geopolítico complexo, com conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, desafia a reconstrução da confiança global.
Essa discrepância sugere que, enquanto os líderes empresariais e políticos debatem o futuro global, a “história avança além de Davos”, impulsionada por ações que ignoram os princípios de cooperação ali defendidos. A credibilidade do Fórum é posta à prova frente a esses eventos concretos.
O desafio da prestação de contas e do risco compartilhado
Mariana Mazzucato enfatiza que a distinção entre criadores de valor genuíno e extratores de renda é obscurecida na ausência de mecanismos robustos de responsabilização. Sem eles, as promessas de um futuro mais equitativo permanecem vazias, beneficiando poucos em detrimento de muitos.
A economista, cuja obra é frequentemente debatida por seu foco no papel do Estado empreendedor, defende que a geração de riqueza não acontece apenas nas empresas, mas é produzida coletivamente.
A falta de frameworks de prestação de contas e de compartilhamento de riscos impede que as empresas e nações sejam verdadeiramente engajadas com os objetivos do desenvolvimento sustentável. Isso cria um ambiente onde o “lucro a qualquer custo” ainda prevalece sobre a responsabilidade social e ambiental, apesar dos debates sobre ESG no próprio Fórum.
Para que o Fórum Econômico Mundial transcenda o papel de mero palco para declarações de intenção, é imperativo que suas discussões se traduzam em ações com condicionalidades claras e sanções para o não cumprimento. A ausência de tais compromissos mina a confiança pública e a própria relevância do evento.
Em suma, o Fórum Econômico Mundial em Davos enfrenta o desafio de conciliar sua agenda de diálogo com as duras realidades geopolíticas e econômicas. Superar a lacuna entre a retórica e a ação exige mais do que encontros anuais; demanda compromissos vinculativos e uma verdadeira vontade política para reformar as estruturas de poder existentes.
Somente assim o Fórum poderá evoluir de um palco para o “teatro” para um catalisador de mudanças significativas e duradouras, enfrentando os desafios globais com a seriedade e a eficácia que o momento histórico exige, garantindo que a história não apenas marche, mas também se molde em Davos.








