Um analgésico comum pode estar silenciosamente redefinindo o risco de câncer. O ibuprofeno, largamente utilizado para dores e inflamações, é agora objeto de estudos que apontam para uma potencial redução do risco de certos tumores, como os de endométrio e intestino, ao atuar sobre processos inflamatórios e genes específicos.
A relação entre anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), classe à qual o ibuprofeno pertence, e a prevenção do câncer não é totalmente nova. Desde a década de 1970, pesquisadores investigam como esses medicamentos podem inibir o desenvolvimento tumoral. O interesse renovado se deve à crescente compreensão de como a inflamação crônica impulsiona o crescimento de células cancerígenas.
O ibuprofeno é um dos analgésicos mais consumidos globalmente, usado para aliviar dores de cabeça, musculares e menstruais. A possibilidade de que este medicamento de balcão possa oferecer uma proteção inesperada contra a doença tem mobilizado a comunidade científica, embora especialistas alertem para a necessidade de cautela e para os riscos do uso prolongado.
O ibuprofeno e a prevenção de cânceres específicos
Um estudo de 2025 revelou que o ibuprofeno pode diminuir o risco de câncer de endométrio, o tipo mais comum de câncer de útero, que afeta principalmente mulheres após a menopausa. Análises de dados do estudo PLCO (Próstata, Pulmão, Colorretal e Ovário), que acompanhou mais de 42 mil mulheres com idades entre 55 e 74 anos por 12 anos, mostraram que aquelas que relataram tomar pelo menos 30 comprimidos de ibuprofeno por mês tiveram um risco 25% menor de desenvolver câncer de endométrio em comparação com as que tomavam menos de quatro comprimidos mensais. Este efeito protetor foi ainda mais forte em mulheres com doenças cardíacas.
Curiosamente, a aspirina, outro AINE comum, não demonstrou a mesma associação com a redução do risco de câncer de endométrio neste estudo, embora possa ser útil na prevenção da recorrência de câncer de intestino. O potencial do ibuprofeno se estende além do câncer de endométrio, com pesquisas ligando seu uso a um menor risco de câncer de intestino, mama, pulmão e próstata. Para pacientes com histórico de câncer de intestino, o ibuprofeno foi associado a uma menor probabilidade de recorrência.
Mecanismos por trás do potencial anticâncer
Os AINEs atuam bloqueando enzimas chamadas ciclooxigenases (COX). Existem dois tipos principais: a COX-1, que protege o revestimento do estômago e mantém a função renal, e a COX-2, que impulsiona a inflamação. A maioria dos AINEs, incluindo o ibuprofeno, inibe ambas as enzimas, o que explica a recomendação de tomá-los com alimentos.
Ao bloquear a atividade da enzima COX-2, o ibuprofeno reduz a produção de prostaglandinas, mensageiros químicos que promovem a inflamação e o crescimento celular, incluindo o das células cancerígenas. Níveis mais baixos de prostaglandinas podem, portanto, desacelerar ou interromper o desenvolvimento de tumores.
Além disso, o ibuprofeno parece influenciar genes relacionados ao câncer, como HIF-1α, NFκB e STAT3, que são cruciais para a sobrevivência das células tumorais em condições de baixo oxigênio e para a resistência ao tratamento. O medicamento parece reduzir a atividade desses genes, tornando as células cancerígenas mais vulneráveis e, potencialmente, mais sensíveis à quimioterapia. Uma investigação portuguesa, por exemplo, revelou que o ibuprofeno impede as células cancerígenas de produzirem variantes tumorigênicas de certas proteínas.
Embora as descobertas sobre o potencial anticâncer do ibuprofeno sejam promissoras, especialistas enfatizam a necessidade de cautela. O uso prolongado de ibuprofeno acarreta riscos, como danos gastrointestinais e renais, e não deve substituir estratégias de prevenção comprovadas, como alimentação equilibrada e exercícios físicos regulares. A pesquisa continua a desvendar as complexas interações entre medicamentos comuns e a saúde, mas a decisão sobre o uso preventivo deve sempre ser tomada com orientação médica.









