Um avanço científico notável revelou a causa por trás da persistência de algumas feridas que não cicatrizam, mesmo sob tratamento com antibióticos. Uma equipe internacional de pesquisadores, liderada pela Nanyang Technological University (NTU Singapore) e em colaboração com a Universidade de Genebra, identificou que uma bactéria comum libera moléculas que ativamente impedem a reparação dos tecidos da pele. Esta descoberta oferece uma nova perspectiva para milhões de pacientes.
A pesquisa, detalhada em um estudo publicado na revista Science Advances em janeiro de 2026, aponta para um mecanismo biológico surpreendente, onde o problema vai além da resistência aos fármacos. Conforme noticiado pelo portal ScienceDaily, as feridas crônicas representam um desafio global de saúde. Estima-se que cerca de 18,6 milhões de pessoas em todo o mundo desenvolvam úlceras do pé diabético anualmente.
Essas úlceras são uma das principais causas de amputações de membros inferiores, e até um terço das pessoas com diabetes pode sofrer de uma úlcera no pé durante a vida. A gravidade é evidente em estatísticas como as de Singapura, onde mais de 16 mil novos casos de feridas crônicas, incluindo úlceras do pé diabético, são reportados anualmente. Compreender a fundo por que essas lesões persistem é crucial.
É essencial desenvolver abordagens terapêuticas mais eficazes, indo além dos tratamentos convencionais que muitas vezes falham na resolução do problema. A nova pesquisa da NTU Singapore lança luz sobre os mecanismos biológicos que impedem a cicatrização, abrindo portas para inovações no campo da medicina regenerativa.
A ação sorrateira da bactéria Enterococcus faecalis
A equipe de pesquisa, que incluiu o Dr. Aaron Tan, pesquisador da NTU, descobriu que a bactéria Enterococcus faecalis (E. faecalis), um patógeno oportunista comum em infecções crônicas, não só resiste a antibióticos, mas interfere ativamente na cicatrização. Essa bactéria utiliza um processo metabólico, o transporte de elétrons extracelulares (EET), para produzir peróxido de hidrogênio.
O peróxido de hidrogênio é uma espécie reativa de oxigênio (ROS) altamente prejudicial. Ele induz estresse oxidativo nas células da pele próximas, os queratinócitos. Em laboratório, observou-se que esse estresse ativa uma “resposta de proteína não dobrada”. Esta resposta, embora protetora em outras circunstâncias, paralisa as células no contexto da ferida.
As células ficam impedidas de migrar para a área danificada e selar o tecido, um passo essencial para a cicatrização. Essa descoberta demonstra um mecanismo direto de como a E. faecalis sabota o processo de reparo tecidual, um achado que surpreendeu os cientistas, pois o metabolismo bacteriano em si age como arma.
Um novo caminho para a recuperação de feridas
A chave para reverter esse processo foi encontrada na neutralização do peróxido de hidrogênio. Os pesquisadores demonstraram que, ao tratar as células da pele estressadas com catalase, uma enzima antioxidante natural que decompõe o peróxido de hidrogênio, os níveis de estresse celular diminuíram. Consequentemente, as células recuperaram sua capacidade de migrar e iniciar a cicatrização.
Essa abordagem oferece uma alternativa promissora que vai além do uso exclusivo de antibióticos, especialmente em casos de resistência. O professor associado Guillaume Thibault, da NTU, destaca a importância de neutralizar os produtos nocivos gerados pela bactéria, em vez de apenas tentar eliminá-la. Isso pode restaurar a cicatrização e combater a resistência aos antibióticos.
A descoberta abre a porta para o desenvolvimento de terapias focadas em contrariar a ação metabólica da E. faecalis. Potencialmente, pode-se combinar agentes antioxidantes com tratamentos existentes para reativar o processo de cura em feridas que antes se recusavam a fechar. Essa estratégia é vista como um caminho mais rápido da pesquisa laboratorial para a aplicação clínica, dada a familiaridade com antioxidantes como a catalase.
A compreensão aprofundada de como a Enterococcus faecalis sabota a cicatrização oferece uma luz no fim do túnel para milhões de pessoas que sofrem com feridas crônicas. Ao focar na neutralização de seus subprodutos danosos, a ciência pode estar à beira de uma revolução nos tratamentos. Isso transformaria o prognóstico para úlceras diabéticas e outras lesões persistentes. Os pesquisadores planejam avançar para ensaios clínicos em humanos, após determinar a melhor forma de aplicar os antioxidantes em estudos com modelos animais.










