Novas pesquisas desafiam a visão tradicional sobre a alimentação de nossos ancestrais, revelando que a coleta de carcaças, longe de ser um último recurso primitivo, foi uma estratégia de sobrevivência humana fundamental. Essa prática, frequentemente subestimada, forneceu nutrição vital e vantagens adaptativas que moldaram significativamente a evolução da nossa espécie, conforme um estudo recente aponta.
Por décadas, a narrativa predominante focava na caça como o pilar da dieta e desenvolvimento humano. No entanto, uma investigação aprofundada, liderada pelo Centro Nacional de Pesquisa sobre Evolução Humana (CENIEH) e com contribuições do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (IPHES-CERCA), recontextualiza o papel do consumo de carniça.
Publicado no Journal of Human Evolution, o estudo examina a ingestão de carniça desde os primeiros hominídeos até os humanos modernos, argumentando que a coleta de restos animais foi uma tática central e repetida ao longo da história evolutiva humana. Essa abordagem flexível e eficiente foi um diferencial para a nossa jornada, complementando a caça e a coleta de plantas, como detalhado em uma reportagem da ScienceDaily.
A inteligência por trás da carniça: uma estratégia evolutiva
A coleta de carcaças apresentava benefícios inegáveis para os primeiros humanos. Encontrar e explorar restos de animais exigia menos energia do que caçar presas vivas, ao mesmo tempo em que fornecia nutrientes essenciais, especialmente em períodos de escassez. Em tempos de fome, a carniça podia ser uma das fontes alimentares mais confiáveis, conforme detalha o estudo.
Estudos ecológicos recentes corroboram essa perspectiva, indicando que a carniça é mais abundante e previsível na natureza do que se supunha anteriormente. Além disso, muitas espécies de necrófagos desenvolveram comportamentos que limitam a exposição a doenças, reduzindo os riscos associados a essa fonte de alimento.
Os pesquisadores enfatizam que os humanos estavam biologicamente e comportamentalmente bem equipados para essa prática. “O pH ácido do estômago humano pode atuar como defesa contra patógenos e toxinas, e o risco de infecção diminuiu consideravelmente quando começamos a usar o fogo para cozinhar”, explicam os cientistas envolvidos na pesquisa.
Adaptações humanas: ferramentas, fogo e cooperação
A capacidade de viajar longas distâncias com baixo gasto energético foi crucial para localizar oportunidades de alimento. Combinadas com a tecnologia primitiva, essas características deram aos humanos uma vantagem única. Ferramentas de pedra, mesmo as mais simples, e a linguagem, possibilitaram a coordenação de esforços em grupo para encontrar carcaças e extrair recursos valiosos, como carne, gordura e medula óssea.
Essa perspectiva desafia a ideia de que a coleta de carniça foi uma fase primitiva abandonada com o aprimoramento das habilidades de caça. Pesquisas modernas demonstram que todas as espécies carnívoras consomem carniça em algum grau. Sociedades caçadoras-coletoras contemporâneas ainda incluem a coleta de carniça em suas práticas de subsistência, evidenciando sua eficácia contínua.
Em suma, a coleta de carcaças nunca foi apenas um degrau para a caça. Foi uma parte consistente e essencial da sobrevivência humana que complementou outros métodos de obtenção de alimentos. Longe de ser um comportamento marginal, o consumo de carniça desempenhou um papel central na formação da evolução humana e, em última análise, ajudou a nos tornar quem somos.












