Um fóssil de Thrinaxodon liorhinus, com cerca de 250 milhões de anos, está reescrevendo a história da evolução da audição nos mamíferos. A descoberta, detalhada por pesquisadores da Universidade de Chicago, sugere que a capacidade de ouvir sons transmitidos pelo ar surgiu muito antes do que se imaginava, desafiando a antiga teoria da “audição pela mandíbula”. Esta revelação redefine nossa compreensão sobre as origens da audição mamífera e a adaptação crucial para a sobrevivência de ancestrais.

A audição sensível foi um avanço decisivo na evolução dos mamíferos, oferecendo uma vantagem vital em ambientes dominados por dinossauros, especialmente para aqueles ativos durante a noite. O sistema auditivo moderno, com tímpano e ossículos minúsculos, permite detectar uma vasta gama de sons. A pesquisa com o Thrinaxodon liorhinus, um ancestral mamífero do período Triássico, mostra que essa característica fundamental estava se formando muito antes, empurrando sua origem em quase 50 milhões de anos.

Esse animal, pertencente ao grupo dos cinodontes, exibia uma fascinante mistura de traços reptilianos e mamíferos. Dentre suas características notáveis, estavam dentes especializados e modificações que apoiavam uma respiração mais eficiente. Compreender como esses seres pré-históricos percebiam o mundo é essencial para traçar a linha evolutiva que nos levou à complexidade auditiva atual.

Uma reviravolta na compreensão da audição ancestral

Por quase um século, cientistas debateram como os ancestrais mamíferos conseguiam ouvir. A teoria prevalente, proposta há cerca de 50 anos pelo paleontólogo Edgar Allin da Universidade de Illinois Chicago, sugeria que cinodontes como o Thrinaxodon ouviam principalmente por condução óssea, ou pela “audição pela mandíbula”, percebendo vibrações do solo. Contudo, essa ideia carecia de testes biomecânicos robustos.

Avanços tecnológicos revolucionaram a paleontologia, permitindo análises detalhadas sem danificar fósseis. Alec Wilken, estudante de pós-graduação que liderou o estudo, utilizou tomografias computadorizadas de alta resolução do crânio e mandíbula do Thrinaxodon, no PaleoCT Laboratory da Universidade de Chicago. Essas imagens geraram um modelo 3D preciso, crucial para a investigação de como o som viajaria pela anatomia do animal.

A equipe empregou um software de engenharia, Strand7, para realizar uma análise de elementos finitos. Esse método, comumente usado em projetos de pontes e aeronaves, simulou como o crânio e a mandíbula do Thrinaxodon reagiriam a diferentes pressões e frequências sonoras. Os dados sobre espessura, densidade e flexibilidade de ossos e ligamentos de animais vivos foram aplicados para garantir a precisão, segundo a ScienceDaily.

O Thrinaxodon e a evolução do ouvido médio

O Thrinaxodon, um cinodonte do Triássico Inferior, é um exemplo primordial de transição evolutiva. Ele já possuía características mamíferas, como dentes especializados e um palato modificado, mas seus ossos do ouvido — martelo, bigorna e estribo — ainda estavam conectados à mandíbula. Essa conexão foi uma etapa intermediária antes da separação que formou o ouvido médio dos mamíferos modernos.

Os resultados das simulações, publicadas na revista PNAS, foram categóricos: um tímpano posicionado em uma seção curva do osso da mandíbula permitiria ao Thrinaxodon captar sons aéreos de forma muito mais eficiente do que apenas pela condução óssea. Essa evidência empurra a origem de um tímpano funcional para a audição de sons no ar em quase 50 milhões de anos.

Para os pesquisadores da Universidade de Chicago, essa descoberta é significativa porque estabelece um marco anterior para uma característica que se tornaria definidora para os mamíferos. A capacidade de detectar uma gama mais ampla de sons, em volumes variados, provou ser um diferencial competitivo crucial para a sobrevivência e proliferação dos mamíferos primitivos.

A revelação sobre a audição do Thrinaxodon não apenas reescreve uma página importante da história evolutiva, mas também sublinha o poder das ferramentas computacionais na paleontologia. A modelagem biomecânica, combinada com a análise de fósseis, continuará a desvendar mistérios sobre como a vida se adaptou e evoluiu. Novas pesquisas podem focar em outros cinodontes, buscando mais evidências dessa complexa transição auditiva.