A China registrou uma queda drástica na taxa de natalidade em 2025, com 7,92 milhões de nascimentos, o menor nível desde 1949. Esse declínio demográfico da China, já inevitável, aprofunda-se por múltiplos fatores, levantando sérias questões sobre seu futuro econômico e social. Reverter essa tendência será extremamente difícil, se não impossível, e levará tempo, segundo Yi Fuxian, da Universidade de Wisconsin-Madison, em artigo para o Project Syndicate.
O cenário atual reflete uma crise que se agrava rapidamente. Em 2024, o país havia contabilizado 9,54 milhões de nascimentos, e as projeções iniciais para 2025 eram bem maiores, mostrando a dimensão do erro de cálculo e a aceleração do problema. A taxa de natalidade chinesa atingiu níveis comparáveis aos de 1738, quando a população total era de apenas 150 milhões de habitantes, um contraste gritante com os bilhões atuais.
Este colapso demográfico não é apenas um problema numérico; ele representa um desafio estrutural para a segunda maior economia do mundo. A diminuição da força de trabalho, o envelhecimento populacional e a pressão sobre os sistemas de previdência e saúde são apenas algumas das consequências imediatas. A população chinesa diminuiu pelo quarto ano consecutivo em 2025, com uma redução de 3,39 milhões de pessoas.
Desafios estruturais e culturais na reversão do declínio demográfico
Apesar dos esforços do governo chinês para incentivar mais nascimentos, como a introdução da política de três filhos em 2021, os resultados têm sido limitados. Fatores como o alto custo de vida e a pressão por longas jornadas de trabalho contribuem para a relutância em ter mais filhos. Uma análise da Reuters destaca a ineficácia das políticas.
Mulheres jovens enfrentam a pressão de conciliar carreira e família em uma sociedade com expectativas tradicionais e realidades econômicas modernas. Um estudo do Instituto de Pesquisa Populacional YuWa, divulgado pela CNN Brasil, demonstrou que as despesas são elevadas, sendo a China um dos países mais caros do mundo para criar um filho, superando EUA e Japão.
Décadas da política do filho único deixaram um legado cultural profundo, com famílias acostumadas a ter um único herdeiro. A mentalidade de “menos é mais” na criação de filhos se enraizou, dificultando que o governo mude rapidamente as percepções e comportamentos. O fim dessa política em 2015, e a subsequente política de dois e três filhos, não conseguiram reverter a tendência de baixa fertilidade.
Implicações econômicas e o futuro da força de trabalho
O declínio da população em idade ativa é uma das consequências mais preocupantes para a economia chinesa. A Organização das Nações Unidas (ONU) projeta que a China perderá centenas de milhões de pessoas em idade de trabalho nas próximas décadas.
Isso pode levar a uma desaceleração do crescimento econômico e a uma escassez de mão de obra. A capacidade de inovação e a competitividade global do país podem ser diretamente afetadas por essa mudança demográfica. A taxa de fertilidade chinesa, de aproximadamente um filho por mulher, está bem abaixo da taxa de reposição de 2,1.
Para combater essa tendência, o governo tem investido em automação e inteligência artificial para compensar a redução da força de trabalho. Contudo, estas medidas podem não ser suficientes para sustentar o ritmo de desenvolvimento. A pressão sobre o sistema de seguridade social também aumenta consideravelmente, com menos trabalhadores contribuindo para sustentar uma população idosa crescente.
Especialistas sugerem que a China precisará de reformas profundas em suas políticas sociais e econômicas para mitigar os efeitos adversos do envelhecimento populacional. Medidas como o aumento da idade de aposentadoria (de 60 para 63 anos para homens e de 55 para 58 para mulheres) e subsídios para cuidados infantis têm sido implementadas, mas seu impacto ainda é incerto.
O caminho para reverter o declínio demográfico da China é complexo e sem soluções fáceis. Embora o governo implemente medidas de incentivo, a combinação de fatores econômicos, sociais e culturais exige uma abordagem multifacetada e de longo prazo. As projeções indicam que a nação terá de se adaptar a uma nova realidade demográfica, buscando inovação e eficiência para manter seu ímpeto econômico em um cenário de população decrescente e envelhecida.
A capacidade de Pequim de gerenciar essa transição definirá não apenas o futuro da China, mas terá repercussões significativas para a economia global. O desafio é manter o crescimento e a competitividade enquanto se ajusta a uma pirâmide etária invertida, um teste crucial para a resiliência do modelo chinês.












