A Europa enfrenta seu mais severo teste estratégico desde o fim da Guerra Fria, com a invasão da Ucrânia pela Rússia e a crescente fragmentação geopolítica expondo a fragilidade de suas capacidades de defesa. Apesar do aumento expressivo nos orçamentos militares nacionais, a União Europeia percebe que a verdadeira força reside na coesão, exigindo um financiamento conjunto e uma aquisição coordenada para defender-se eficazmente. A Comissão Europeia e seus membros buscam um caminho para essa autonomia.
Em 2024, os gastos com defesa dos 27 Estados-Membros da União Europeia alcançaram um valor sem precedentes de 343 bilhões de euros, representando 1,9% do PIB. Isso marcou um aumento de 19% em relação a 2023.
A Agência Europeia de Defesa (AED) projeta que este montante cresça para 2,1% do PIB em 2025, conforme seu relatório anual de Dados de Defesa para 2024-2025. Esse impulso reflete uma determinação crescente em reforçar as capacidades militares do continente, impulsionado por níveis recordes de aquisição de equipamento e investimento em pesquisa e desenvolvimento, segundo a AED.
Contudo, o desafio não se limita apenas a gastar mais. A eficácia desses investimentos é severamente comprometida pela fragmentação das aquisições e pela falta de coordenação entre os países. A dependência de Washington para segurança e logística também ressalta a urgência de uma autonomia estratégica europeia mais robusta.
A fragmentação custosa e o impulso por unidade
Apesar dos bilhões investidos, a defesa europeia sofre com uma ineficiência estrutural. Os exércitos europeus operam com uma vasta gama de equipamentos militares, incluindo 17 tipos diferentes de tanques de batalha e 20 modelos de caças.
Isso contrasta fortemente com o padrão mais unificado dos Estados Unidos, que utiliza apenas um tipo de tanque e seis de caças. Essa diversidade resulta em cadeias de suprimentos complexas, custos de manutenção elevados e dificuldades de interoperabilidade, minando a capacidade de resposta conjunta.
Para mitigar essas ineficiências, a Comissão Europeia propôs um ambicioso plano de defesa de 800 bilhões de euros, que inclui um novo empréstimo conjunto de 150 bilhões de euros destinado a financiar áreas estratégicas. Essa iniciativa visa promover a compra conjunta de equipamentos, reduzir a fragmentação e fortalecer a base industrial de defesa europeia.
O Fundo Europeu de Defesa (FED), com um orçamento de 7,953 bilhões de euros para 2021-2027, já apoia projetos colaborativos de pesquisa e desenvolvimento, demonstrando o potencial da cooperação.
Autonomia estratégica: reduzindo a dependência externa
A busca por uma defesa europeia mais unificada é intrinsecamente ligada à necessidade de reduzir a dependência dos Estados Unidos. A retórica sobre a “autonomia estratégica” da União Europeia ganhou força, especialmente com o cenário político americano sinalizando uma possível diminuição do apoio.
Conforme destacado por Ulrike Malmendier e coautores em artigo para o Project Syndicate em 20 de janeiro de 2026, “aumentar a resiliência e reduzir a dependência dos Estados Unidos exigirá a mobilização de recursos em nível europeu”. O “Roteiro sobre a Prontidão no domínio da Defesa 2030” da Comissão Europeia, apresentado em outubro de 2025, estabelece objetivos claros para preencher lacunas de capacidade e acelerar investimentos.
O foco inclui iniciativas como defesa antidrones e escudos aéreo e espacial europeus. A flexibilização das regras fiscais da UE, através da ativação das cláusulas de escape do Pacto de Estabilidade e Crescimento, também é uma proposta para permitir que os Estados-Membros invistam mais em defesa com recursos nacionais.
Essa medida, aliada aos esforços de financiamento conjunto, busca criar um pilar de segurança e defesa europeu mais robusto e autônomo, capaz de enfrentar os desafios geopolíticos contemporâneos sem depender cegamente de Washington. Como noticiado pela CNN Brasil, a proposta da Comissão Europeia visa fortalecer a autonomia militar.
A construção de uma defesa europeia verdadeiramente integrada e autônoma transcende a mera soma de orçamentos nacionais. Exige uma transformação estrutural que priorize a cooperação, o financiamento conjunto e a aquisição coordenada.
Somente assim a União Europeia poderá garantir a segurança de seus cidadãos e afirmar-se como um ator geopolítico resiliente e independente no cenário global, respondendo de forma eficaz aos desafios de um mundo cada vez mais imprevisível. O caminho é complexo, mas a urgência dos tempos exige ação decisiva e unificada.












