A sonda Solar Orbiter, uma iniciativa da Agência Espacial Europeia (ESA), capturou as evidências mais claras até o momento de como uma erupção solar se desenvolve por meio de uma cascata conhecida como “avalanche magnética”. Pequenas perturbações magnéticas se multiplicaram rapidamente, desencadeando explosões cada vez mais fortes que aceleraram partículas a velocidades extremas.
O processo gerou fluxos de plasma incandescente que caíram pela atmosfera do Sol muito depois do pico da própria erupção, conforme detalhado em um estudo publicado em 21 de janeiro de 2026 na revista Astronomy & Astrophysics.
Esta descoberta, registrada durante a passagem próxima da Solar Orbiter pelo Sol em 30 de setembro de 2024, oferece uma visão sem precedentes dos momentos iniciais das mais poderosas explosões do sistema solar, de acordo com o portal ScienceDaily. Compreender a natureza e a evolução dessas chamas solares é fundamental, pois seus efeitos podem ir muito além do Sol, alcançando a Terra e influenciando diretamente a meteorologia espacial.
A missão Solar Orbiter, uma colaboração entre a ESA e a NASA, tem como objetivo principal estudar de perto o Sol e a heliosfera interna. Ela busca responder a questões profundas sobre o ciclo de atividade magnética solar, o aquecimento da coroa e a formação do vento solar. Suas observações de alta resolução são cruciais para desvendar mistérios que impactam nossa tecnologia e infraestrutura no planeta.
A dança da reconexão magnética e a avalanche solar
As erupções solares são liberadas quando grandes quantidades de energia armazenadas em campos magnéticos torcidos são subitamente liberadas através de um processo conhecido como reconexão magnética. Durante a reconexão, as linhas do campo magnético apontando em direções opostas se rompem e se reconectam em uma nova configuração. Este rearranjo rápido aquece o plasma a milhões de graus e arremessa partículas energizadas.
Pesquisas anteriores já indicavam a reconexão magnética como um fenômeno central, mas a Solar Orbiter forneceu o detalhe inédito de sua cascata. A sonda utilizou uma combinação rara de quatro instrumentos – EUI, SPICE, STIX e PHI – para observar diferentes camadas do Sol, desde a coroa quente até a fotosfera visível. Isso permitiu rastrear o acúmulo da erupção por aproximadamente 40 minutos.
Pradeep Chitta, do Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar na Alemanha e principal autor do estudo, destacou a sorte da equipe em testemunhar os eventos precursores da grande erupção com tamanha clareza e detalhe. As observações do EUI revelaram um filamento escuro em forma de arco, composto por campos magnéticos torcidos e plasma, que se tornou instável à medida que novas fitas magnéticas se formavam e se retorciam.
Como uma avalanche ganhando impulso, as estruturas magnéticas começaram a se romper e se reconectar em rápida sucessão. Isso desencadeou uma cadeia de perturbações que se espalhavam, cada uma mais forte que a anterior, visível como súbitos flashes de brilho. Este é o cerne da “avalanche magnética”, um mecanismo que transforma pequenas instabilidades em explosões massivas, e que agora é compreendido com um nível de detalhe sem precedentes graças à Solar Orbiter.
Impactos das erupções solares na Terra
As erupções solares mais intensas podem desencadear uma reação em cadeia que alcança a Terra, provocando tempestades geomagnéticas e, por vezes, interrompendo as comunicações de rádio. Em maio de 2025, por exemplo, o Sol apresentou atividade intensa, liberando potentes labaredas que causaram interrupções em comunicações de rádio de alta frequência e afetaram sistemas de navegação GPS.
Essas tempestades geomagnéticas, que podem variar de intensidade (G1 a G5), são capazes de interferir em redes elétricas, representar riscos para satélites e até mesmo para missões espaciais tripuladas. As oscilações no campo magnético terrestre durante esses eventos podem sobrecarregar infraestruturas elétricas, aumentando o risco de blecautes.
Embora não causem danos diretos às pessoas, as erupções solares podem intensificar a radiação para astronautas em órbita baixa e passageiros de voos polares. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), por exemplo, monitora esses eventos para prever seus impactos. A capacidade de prever esses eventos, aprimorada por observações como as da Solar Orbiter, é crucial para mitigar seus potenciais impactos.
A captura da “avalanche magnética” pela Solar Orbiter representa um avanço significativo na compreensão das erupções solares, um fenômeno tão fascinante quanto potencialmente disruptivo. Ao desvendar os mecanismos por trás dessas explosões gigantes, a ciência se equipa melhor para prever e mitigar os efeitos da meteorologia espacial na Terra. O futuro da exploração solar com missões como a Solar Orbiter continua a prometer insights valiosos, solidificando nossa capacidade de coexistir com a dinâmica, e por vezes impetuosa, estrela que sustenta a vida em nosso planeta.








