Cientistas do International Centre for Radio Astronomy Research (ICRAR) revelaram uma impressionante e inédita imagem da Via Láctea em cores de rádio de baixa frequência. Este avanço expõe nascimentos estelares ocultos, mortes de estrelas e vastas estruturas galácticas como nunca antes, marcando um momento crucial para a compreensão da nossa própria galáxia.
A nova perspectiva, divulgada em 24 de janeiro de 2026, oferece uma visão sem precedentes da Via Láctea a partir do Hemisfério Sul, mapeando estruturas invisíveis em comprimentos de onda de rádio. Essa capacidade de observar a galáxia em diferentes "cores" de rádio abre portas para o estudo do ciclo de vida das estrelas e da própria formação galáctica. É um salto significativo em relação às observações anteriores, fornecendo uma clareza e profundidade inéditas.
O projeto, que demandou anos de esforço computacional e pesquisa, permite agora uma distinção mais precisa entre regiões de formação estelar e os remanescentes dramáticos de estrelas que chegaram ao fim de suas vidas. A imagem é mais nítida, profunda e ampla, revelando características que eram difíceis ou impossíveis de serem vistas anteriormente, conforme detalhado pela ScienceDaily.
A tecnologia por trás da imagem sem precedentes
A criação desta imagem monumental é fruto do trabalho de Silvia Mantovanini, estudante de doutorado no nó da Curtin University do ICRAR. Ela dedicou 18 meses ao projeto, utilizando aproximadamente 1 milhão de horas de CPU em supercomputadores do Pawsey Supercomputing Research Centre para processar e combinar uma quantidade massiva de dados.
As observações foram realizadas com o telescópio Murchison Widefield Array (MWA), localizado em Inyarrimanha Ilgari Bundara, o Observatório de Radioastronomia Murchison da CSIRO, na Austrália Ocidental. Os dados provêm das pesquisas GaLactic and Extragalactic All-sky MWA (GLEAM) e sua continuação, GLEAM-X, que coletaram informações em 28 noites entre 2013 e 2014, e em 113 noites de 2018 a 2020, respectivamente.
Em comparação com a imagem GLEAM de 2019, esta nova versão da Via Láctea em cores de rádio oferece o dobro da resolução, dez vezes a sensibilidade e cobre o dobro da área do céu. Essas melhorias permitem aos astrônomos examinar nossa galáxia com um nível de detalhe muito maior, desvendando características que antes permaneciam ocultas. Mantovanini destaca que "esta imagem vibrante oferece uma perspectiva incomparável de nossa Galáxia em baixas frequências de rádio".
Desvendando os ciclos estelares e a estrutura galáctica
A pesquisa de Mantovanini foca nos remanescentes de supernova, que são as nuvens em expansão de gás e energia formadas após a explosão de uma estrela. Embora centenas desses remanescentes já tenham sido identificados, acredita-se que milhares ainda aguardam descoberta. A nova imagem facilita a separação do material que circunda estrelas recém-formadas do gás deixado por estrelas mortas, revelando estruturas mais claras por toda a galáxia.
Segundo Mantovanini, "é possível identificar claramente remanescentes de estrelas explodidas, representados por grandes círculos vermelhos. As regiões azuis menores indicam berçários estelares onde novas estrelas estão se formando ativamente". Essa distinção é crucial para entender a evolução estelar. Além disso, a imagem pode auxiliar na compreensão dos pulsares, os núcleos densos e giratórios de estrelas massivas.
Ao analisar o brilho dos pulsares em diferentes frequências GLEAM-X, os astrônomos esperam aprender mais sobre como esses objetos produzem ondas de rádio e sua distribuição na Via Láctea. A Professora Associada Natasha Hurley-Walker, do mesmo time do ICRAR e investigadora principal do GLEAM-X, ressalta a importância para o estudo da estrutura galáctica, afirmando que "nenhuma imagem de rádio de baixa frequência de todo o Plano Galáctico Sul foi publicada antes, tornando este um marco emocionante na astronomia".
A revelação desta nova visão da Via Láctea em cores de rádio representa um avanço fundamental na radioastronomia. Com a capacidade de mapear a galáxia com detalhes sem precedentes, os cientistas estão agora equipados com ferramentas poderosas para desvendar os mistérios da formação estelar, da vida e morte das estrelas, e da complexa arquitetura da nossa própria galáxia. Este trabalho prepara o terreno para futuras descobertas, especialmente com a chegada de telescópios ainda mais potentes, como o SKA-Low Observatory, previsto para ser concluído na próxima década.









