Pesquisadores no Japão desenvolveram uma técnica inovadora para esculpir nanodispositivos tridimensionais diretamente de cristais únicos. Essa abordagem permite o controle preciso da eletricidade por meio da geometria dessas estruturas microscópicas, marcando um avanço significativo na eletrônica moderna.

A inovação, liderada por cientistas do RIKEN Center for Emergent Matter Science e colaboradores, foi detalhada em um estudo publicado na Nature Nanotechnology. Ela demonstra como a forma física de um componente pode influenciar diretamente o movimento da corrente elétrica, um conceito que promete revolucionar o design de dispositivos.

A capacidade de manipular o fluxo elétrico ao torcer cristais abre portas para uma nova geração de eletrônicos. Dispositivos construídos com formas tridimensionais complexas podem ser menores, mais eficientes e mais poderosos do que os atuais componentes planos.

A escultura de nanodispositivos e o efeito diodo

A técnica emprega um instrumento de feixe de íons focado, capaz de remover material com precisão submicrométrica, um método que se assemelha à escultura tradicional. Com isso, a equipe conseguiu criar estruturas helicoidais minúsculas a partir de um cristal magnético topológico, o Co₃Sn₂S₂.

Os testes revelaram que essas estruturas funcionam como diodos comutáveis, onde a corrente elétrica flui preferencialmente em uma direção. O efeito pode ser invertido ao mudar a magnetização do material ou a “mão” da hélice, ou seja, seu sentido de torção. Segundo Max Birch, primeiro autor do estudo, “Ao tratar a geometria como uma fonte de quebra de simetria em pé de igualdade com as propriedades intrínsecas do material, podemos projetar a não reciprocidade elétrica no nível do dispositivo.”

Geometria como ferramenta de design eletrônico

Historicamente, a fabricação de eletrônicos tridimensionais enfrentou limitações significativas, restringindo os materiais utilizáveis e comprometendo a qualidade final dos dispositivos. A nova técnica de “nanosculpting” do RIKEN supera esses desafios, permitindo a criação de dispositivos 3D a partir de praticamente qualquer material cristalino.

Essa descoberta sugere que a geometria em si pode ser uma ferramenta de design tão poderosa quanto a escolha do material. Yoshinori Tokura, líder do grupo de pesquisa, destaca que a abordagem permite o desenvolvimento de arquiteturas de dispositivos funcionais com impacto potencial em tecnologias de memória, lógica e sensoriamento de baixa potência.

A investigação do comportamento desses cristais torcidos em diferentes tamanhos e temperaturas permitiu aos pesquisadores atribuir o efeito diodo à dispersão desigual de elétrons ao longo das paredes curvas e quirais dos dispositivos. Este entendimento fundamental pavimenta o caminho para componentes eletrônicos projetados por forma, que podem ser essenciais para o avanço da tecnologia nas próximas décadas.