Uma nova pesquisa sugere que a inflamação crônica pode enrijecer o cólon, criando um ambiente físico que favorece o desenvolvimento do câncer colorretal de início precoce em adultos mais jovens, uma tendência preocupante na saúde pública. Este tipo de câncer, que não está ligado a condições genéticas hereditárias e tradicionalmente surge após os 50 anos, tem visto um aumento acentuado de diagnósticos e mortes entre pessoas com menos de 50 anos nas últimas três décadas. Desde 2020, o câncer colorretal de início precoce já representa cerca de 12% de todos os casos nos Estados Unidos, e a incidência tem crescido globalmente, acendendo um alerta.
Historicamente, a investigação sobre o aumento do câncer colorretal em jovens concentrou-se em fatores de estilo de vida, obesidade e exposições ambientais que poderiam levar à inflamação intestinal crônica. Contudo, o elo biológico entre essa inflamação e o câncer de início precoce permanecia pouco compreendido. Agora, um estudo recente, com descobertas publicadas na revista Advanced Science, aponta para uma conexão física crucial, oferecendo novas perspectivas para identificação de riscos e tratamentos direcionados.
A inflamação crônica e a transformação do tecido
A inflamação prolongada pode desencadear um processo de cicatrização que altera lentamente a estrutura do tecido, aumentando sua rigidez ao longo do tempo. Mudanças semelhantes já são conhecidas por contribuir para o desenvolvimento de câncer em outros órgãos, como mama e pâncreas. A equipe de pesquisadores do UT Southwestern Medical Center, em colaboração com cientistas da University of Texas em Dallas, investigou se esse mesmo processo poderia desempenhar um papel no câncer colorretal de início precoce.
“Consideramos este estudo um avanço significativo para identificar aqueles em risco de câncer colorretal de início precoce e encontrar novas formas de tratá-los”, afirmou Emina Huang, M.D., M.B.A., Professora de Cirurgia na Divisão de Cirurgia Colorretal e Vice-Presidente Executiva de Pesquisa em Cirurgia no UT Southwestern. Para o estudo, foram analisadas amostras de tecido do cólon de pacientes que passaram por cirurgia de remoção de tumor. A análise incluiu 19 amostras de indivíduos com câncer colorretal de início médio e 14 de pacientes com início precoce.
Os testes revelaram que o tecido de pacientes com câncer colorretal de início precoce era significativamente mais rígido do que o de pacientes mais velhos. Essa rigidez foi observada não apenas dentro dos tumores, mas também em áreas saudáveis adjacentes, sugerindo que o aumento da rigidez pode ocorrer antes mesmo do câncer se desenvolver plenamente.
Colágeno, mecanotransdução e novas perspectivas
Para entender a causa dessa rigidez, a equipe examinou o colágeno, uma proteína estrutural que se torna mais abundante e muda de forma durante a cicatrização. O tecido do cólon de pacientes com câncer colorretal de início precoce continha colágeno mais denso, mais longo, mais maduro e mais uniformemente alinhado em comparação com as amostras de casos de início médio. Essas características indicam fortemente uma cicatrização extensa no tecido de câncer colorretal de início precoce.
A análise da atividade gênica revelou maior expressão de genes envolvidos no metabolismo do colágeno, na formação de vasos sanguíneos e na inflamação nas amostras de câncer colorretal de início precoce. Estes achados reforçam a ideia de que a inflamação crônica impulsiona o enrijecimento do tecido. Os pesquisadores também detectaram aumento da atividade em uma via molecular ligada à mecanotransdução – o processo pelo qual as células detectam e respondem a forças físicas. Isso sugere que as células cancerígenas no câncer colorretal de início precoce podem alterar seu comportamento com base na rigidez do ambiente.
“Este é o primeiro estudo a destacar o papel fundamental das forças biomecânicas na patogênese do câncer colorretal de início precoce”, explicou Jacopo Ferruzzi, Ph.D., Professor Assistente de Bioengenharia na UT Dallas e de Engenharia Biomédica no UT Southwestern. Experimentos em laboratório demonstraram que células cancerígenas se multiplicam mais rapidamente em ambientes rígidos, sugerindo que um ambiente mais duro pode levar ao início e crescimento do câncer colorretal em indivíduos que desenvolvem a doença em idade precoce.
As descobertas abrem caminho para novas estratégias de identificação de indivíduos em risco e para o desenvolvimento de tratamentos direcionados. A compreensão de como as forças biomecânicas influenciam o comportamento das células cancerígenas pode levar a intervenções que interrompam ou revertam o crescimento do câncer, uma área de estudo já explorada para outros tipos de câncer.










