Cientistas exploram como as ondas cerebrais, mesmo após paralisia, ainda carregam sinais de movimento. Uma pesquisa recente busca usar eletroencefalografia (EEG) não invasiva para capturar essas intenções e reconectá-las ao corpo, oferecendo esperança na recuperação de pacientes. Publicado em 24 de janeiro de 2026, o estudo aponta um caminho promissor. 0

Pessoas com lesões na medula espinhal frequentemente perdem a capacidade de mover seus membros, embora seus cérebros continuem a enviar os sinais corretos. O problema reside na interrupção da comunicação entre o cérebro e o corpo, um desafio que a ciência tenta superar com abordagens inovadoras. A busca é por restaurar essa ponte sem a necessidade de reparar a medula em si. 0

Esta abordagem, detalhada em um estudo publicado na APL Bioengineering pela AIP Publishing, representa um avanço significativo. Pesquisadores italianos e suíços investigaram se o EEG poderia ser a chave para decodificar a atividade cerebral ligada ao movimento. O objetivo é transformar a intenção de mover um membro paralisado em uma ação física real. 0

Capturando a intenção: EEG como ponte

Até então, muitos estudos dependiam de eletrodos implantados cirurgicamente no cérebro para registrar esses sinais. Embora eficazes, esses métodos carregam riscos como infecções e a complexidade de procedimentos invasivos. A equipe de pesquisa, no entanto, visou uma alternativa mais segura e acessível: o EEG. 0

A eletroencefalografia utiliza eletrodos colocados no couro cabeludo, evitando cirurgias cerebrais. Laura Toni, uma das autoras, destacou a importância de evitar procedimentos invasivos sempre que possível. A tecnologia busca detectar as ondas cerebrais que persistem quando o paciente tenta mover um membro, mesmo que o corpo não responda. 0

Decodificar sinais de movimento usando EEG é um desafio técnico. Os eletrodos superficiais têm dificuldade em captar sinais originados em áreas mais profundas do cérebro. Movimentos dos membros superiores (braços e mãos) são mais fáceis de detectar, pois seus sinais vêm de regiões cerebrais mais externas. 0

Em contraste, os sinais que controlam as pernas e os pés são mais difíceis de capturar, pois se originam de áreas mais centrais do cérebro. “O cérebro controla os movimentos dos membros inferiores principalmente na área central, enquanto os movimentos dos membros superiores estão mais na parte externa”, explicou Toni. 0

Desafios e o futuro da neurotecnologia

Para interpretar os dados complexos do EEG, os pesquisadores empregaram um algoritmo de aprendizado de máquina. Durante os testes, pacientes usaram os capacetes de EEG e tentaram realizar movimentos simples. O algoritmo foi treinado para categorizar os sinais, distinguindo entre tentativas de movimento e períodos de repouso. 0

Apesar do sucesso em identificar a intenção de mover, o sistema ainda enfrenta dificuldades para diferenciar entre diferentes tipos de movimentos. Reconhecer ações específicas como ficar de pé, caminhar ou subir é o próximo grande passo para a equipe. Esse refinamento é crucial para a aplicação prática da tecnologia. 0

O futuro dessa pesquisa envolve aprimorar o algoritmo e explorar como esses sinais decodificados podem ativar estimuladores implantados em pacientes. A esperança é que essa abordagem não invasiva possa, eventualmente, ajudar pessoas com lesões medulares a recuperar movimentos significativos. 0

A integração bem-sucedida de interfaces cérebro-máquina não invasivas com estimuladores espinhais representa uma fronteira promissora na medicina. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a lesão medular afeta milhões globalmente. 0

A recuperação funcional é uma prioridade para pacientes, conforme ressaltado pelo Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos e Derrame (NINDS). 0

A capacidade de transformar a intenção cerebral em movimento físico, sem a necessidade de cirurgias invasivas, marca um ponto de virada potencial. Embora desafios permaneçam, o avanço na decodificação de ondas cerebrais com EEG e aprendizado de máquina abre novas perspectivas. A ciência continua a explorar o potencial inesgotável do cérebro humano na busca por restaurar a qualidade de vida.