O aconchego de uma lareira acesa em noites frias é um cenário frequentemente idealizado, mas uma nova pesquisa da Northwestern University, publicada em janeiro de 2026, revela que essa tradição pode estar contribuindo silenciosamente para a poluição do ar e colocando vidas em risco. O estudo aponta que, mesmo com uma pequena parcela de lares utilizando lenha como fonte principal de aquecimento, a fumaça resultante é um fator de risco considerável, especialmente em centros urbanos.

A pesquisa demonstra que a queima residencial de lenha é responsável por mais de um quinto da exposição dos americanos a partículas finas (PM2.5) no inverno, ligadas a doenças cardíacas e mortes prematuras. Essa poluição, muitas vezes subestimada em comparação à fumaça de incêndios florestais, se desloca para as cidades, afetando desproporcionalmente populações de cor.

Os dados são alarmantes, estimando que a poluição de lareiras e fogões a lenha está associada a cerca de 8.600 mortes prematuras anualmente nos Estados Unidos. A exposição prolongada a essas partículas microscópicas, capazes de penetrar profundamente nos pulmões e na corrente sanguínea, aumenta o risco de doenças cardiovasculares e respiratórias.

O impacto invisível na saúde urbana

As partículas finas PM2.5, com diâmetro de 2,5 micrômetros ou menos, são particularmente perigosas por sua capacidade de se infiltrar no sistema respiratório e alcançar a corrente sanguínea, causando uma série de problemas de saúde. Kyan Shlipak, líder do estudo da Northwestern University, enfatiza que a exposição a longo prazo a essas partículas está diretamente associada a um risco elevado de doenças cardiovasculares e mortalidade.

Um achado surpreendente do estudo é que as comunidades urbanas enfrentam os maiores riscos, mesmo com menor queima de lenha localmente. A poluição gerada em áreas suburbanas, por exemplo, frequentemente se desloca para os centros urbanos, onde a densidade populacional agrava os riscos à saúde pública. Além disso, o impacto recai de forma desproporcional sobre pessoas de cor, que tendem a queimar menos lenha, mas experimentam níveis mais altos de exposição e maiores riscos à saúde, um reflexo de disparidades existentes e políticas discriminatórias históricas.

No contexto português, a Associação ZERO já alertou que noites frias e a ausência de vento podem levar a picos de poluição do ar devido ao aquecimento de habitações com queima de biomassa, contribuindo significativamente para a emissão de partículas. Permanecer em uma sala com lareira acesa por três horas pode equivaler a fumar 16 cigarros, devido aos altos níveis de partículas.

Alternativas para um aquecimento mais seguro

Diante desses riscos, a transição para fontes de aquecimento mais limpas e eficientes torna-se crucial. Daniel Horton, autor sênior do estudo da Northwestern, sugere que a mudança para aparelhos de aquecimento alternativos poderia gerar melhorias significativas na qualidade do ar.

Existem diversas opções sustentáveis para aquecer residências, que minimizam a poluição e promovem a saúde. Entre elas, destacam-se sistemas como painéis solares térmicos, bombas de calor e caldeiras a biomassa (como pellets), que oferecem maior eficiência energética e menor impacto ambiental.

Lareiras a vapor de água, por exemplo, são uma inovação que cria a ilusão de chamas sem produzir emissões, contribuindo até para a umidade do ar. Além de reduzir as emissões de poluentes, essas alternativas podem diminuir o risco de acidentes domésticos, como os causados por monóxido de carbono e queimaduras, que ainda são uma preocupação em Portugal, especialmente em áreas rurais.

A conscientização sobre os perigos da poluição atmosférica, mesmo de fontes aparentemente inofensivas como as lareiras, é um passo fundamental. Investir em tecnologias de aquecimento mais limpas e sustentáveis não é apenas uma questão de conforto, mas uma medida essencial para a saúde pública e a qualidade de vida nas cidades.