O Cycloramphus boraceiensis, conhecido como sapo-de-Boraceia, tornou-se um marco na história da conservação ambiental brasileira na década de 1940, quando sua descoberta levou à revisão do projeto da primeira usina hidrelétrica do estado de São Paulo. Hoje, este anfíbio, endêmico da Mata Atlântica, enfrenta uma ameaça ainda mais complexa e difusa: a crise climática.
Encontrado exclusivamente na Estação Biológica de Boraceia, em Salesópolis (SP), o sapo-de-Boraceia simbolizou a capacidade da ciência de influenciar grandes empreendimentos. Sua presença na região, identificada por pesquisadores do Instituto Butantan e da USP, forçou a realocação de parte da Usina Hidrelétrica da Barra, na época, um feito notável para a proteção de uma espécie. Contudo, décadas depois, o cenário mudou drasticamente, e a luta pela sobrevivência do anfíbio Boraceia crise climática é um espelho de desafios globais.
A Mata Atlântica, onde o sapo-de-Boraceia vive, é um dos biomas mais ricos e ameaçados do planeta. A fragmentação do habitat, a poluição e doenças como a quitridiomicose já impunham pressões significativas. Agora, a alteração dos padrões de chuva e o aumento das temperaturas médias, consequências diretas das mudanças climáticas, intensificam a vulnerabilidade de espécies como o Cycloramphus boraceiensis, classificado como criticamente em perigo pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
O legado de Boraceia e a vulnerabilidade anfíbia
O episódio da Usina da Barra estabeleceu um precedente importante para a legislação ambiental no Brasil, demonstrando que a biodiversidade poderia, sim, ter peso em decisões de desenvolvimento. A atitude de modificar o projeto da usina, em vez de simplesmente suprimir o habitat do sapo, ressaltou a importância de estudos de impacto ambiental em uma era incipiente da conservação. Esse legado, porém, confronta-se com a realidade atual.
Anfíbios são particularmente sensíveis às alterações ambientais. Sua pele permeável os torna vulneráveis à desidratação e à absorção de poluentes, enquanto seus ciclos de vida dependem criticamente de ambientes aquáticos e terrestres equilibrados. Segundo um estudo publicado na Nature em 2024, a crise climática já é uma das principais causas do declínio global de anfíbios, superando em alguns aspectos a perda direta de habitat em certas regiões. Para o sapo-de-Boraceia, que vive em riachos de águas claras e frias, qualquer variação na temperatura ou no regime hídrico pode ser fatal.
A escalada da crise climática na Mata Atlântica
A Mata Atlântica tem sofrido com eventos climáticos extremos. Períodos de seca prolongada, seguidos por chuvas torrenciais, desequilibram ecossistemas delicados. Um relatório do ICMBio destaca que o bioma, com apenas cerca de 12% de sua cobertura original, é um dos mais impactados pelas mudanças climáticas no Brasil. Para o sapo-de-Boraceia, isso significa que seus micro-habitats, como poças e córregos temporários, podem secar antes da conclusão de seu ciclo reprodutivo, ou serem arrastados por enchentes.
A elevação da temperatura média também favorece a proliferação de patógenos, como o fungo Batrachochytrium dendrobatidis, causador da quitridiomicose, uma doença devastadora para populações de anfíbios em todo o mundo. A combinação de habitat reduzido, poluição residual da expansão urbana e agrícola e, agora, os efeitos acelerados da crise climática, criam um cenário desafiador para a sobrevivência do sapo-de-Boraceia e de inúmeras outras espécies. A Lista Vermelha da IUCN reafirma o status crítico, com a população em declínio contínuo.
A história do sapo-de-Boraceia é um lembrete vívido de que a conservação não é uma batalha vencida de uma vez por todas, mas um esforço contínuo. Se antes a ameaça vinha de um projeto de infraestrutura pontual, hoje ela se manifesta na forma de um fenômeno global e sistêmico. A proteção desse anfíbio icônico exige agora não apenas ações locais de preservação de seu habitat, mas também a implementação de políticas mais amplas de combate à crise climática, essenciais para garantir um futuro para a biodiversidade da Mata Atlântica e do planeta.











