Um estudo recente confirma a magnitude da fenda que se estende pelo leste africano, indicando a lenta, mas inexorável, separação do continente e a futura formação de um novo oceano. Este fenômeno geológico, conhecido como o Vale do Rift da África Oriental, projeta uma reconfiguração definitiva dos mapas globais, desafiando a percepção que temos da geografia terrestre. A escala do processo é colossal, transformando o futuro do continente em milênios.
Por décadas, geólogos observam o alongamento e o afinamento da crosta terrestre na região, impulsionados pelas forças das placas tectônicas. A fenda na África não é um evento súbito, mas a manifestação visível de um processo que dura milhões de anos, revelando a dinâmica incessante sob a superfície do nosso planeta. Compreender essa transformação é mergulhar na própria história geológica da Terra e em seu futuro distante.
A evidência mais recente, baseada em dados sísmicos e de GPS, reforça que a placa Somaliana está se afastando da placa Núbia, criando uma zona de fraqueza onde o magma do manto terrestre ascende, esticando e eventualmente rompendo a crosta. Esta divisão não é uniforme, apresentando segmentos ativos que se estendem por milhares de quilômetros, do Afar, na Etiópia, até Moçambique.
A dinâmica das placas tectônicas e o Vale do Rift
A tectônica de placas é a força motriz por trás da formação e da fragmentação dos continentes. No leste africano, a situação é peculiar: a Placa Africana está se dividindo em duas placas menores, a Placa Somali e a Placa Núbia, que se separam a uma taxa de poucos milímetros por ano. Embora pareça insignificante, essa movimentação constante acumula-se ao longo de milhões de anos, resultando em mudanças geográficas dramáticas. Um estudo publicado na revista Nature Communications em 2020 detalhou como a pluma de manto abaixo da região contribui ativamente para esse processo de rifting, ou seja, de formação de fendas.
O Vale do Rift da África Oriental, que abrange países como Etiópia, Quênia e Tanzânia, é uma vasta rede de falhas e vulcões, onde a crosta continental se adelgaça progressivamente. Essa atividade geológica é responsável por terremotos frequentes e pelo vulcanismo, que moldam a paisagem e testemunham a intensa atividade subterrânea. A área do Afar, uma depressão desértica na Etiópia, é particularmente ativa e serve como um laboratório natural para estudar a separação continental, pois ali a crosta já é tão fina que o magma está muito próximo da superfície. Pesquisadores da Universidade de Leeds têm monitorado essas taxas de separação da fenda na África.
Implicações futuras e a formação de um novo oceano
A projeção de um sexto oceano na fenda na África não é ficção científica, mas uma inferência baseada em evidências geológicas sólidas e na compreensão de processos passados. Ao longo de dezenas de milhões de anos, a Placa Somali se afastará o suficiente da Placa Núbia para que a bacia de rift se aprofunde e seja invadida pelas águas do Mar Vermelho e do Oceano Índico. Esse novo corpo d’água eventualmente se transformará em um oceano, completo com sua própria cordilheira meso-oceânica, semelhante ao Atlântico. Este processo é comparável à formação do Mar Vermelho, que é um oceano “jovem” que começou a se abrir há cerca de 30 milhões de anos, como explica a National Geographic sobre o Vale do Rift.
As consequências dessa transformação serão profundas, não apenas para a geografia, mas para a biodiversidade e os padrões climáticos da região. Países como a Somália e partes da Etiópia e do Quênia podem se tornar ilhas ou arquipélagos, enquanto novas costas serão criadas. Embora a escala de tempo geológica seja difícil de conceber em termos humanos, a ciência nos oferece uma janela para esses eventos monumentais. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) constantemente atualiza informações sobre a atividade tectônica global, incluindo a do Vale do Rift.
O adeus aos mapas como os conhecemos não será um evento de um dia para o outro, mas uma lenta e contínua redefinição impulsionada pelas forças internas da Terra. A fenda na África é um lembrete vívido de que nosso planeta é um organismo dinâmico, em constante evolução. O monitoramento contínuo por satélites e estações sísmicas permite aos cientistas acompanhar de perto essa gestação de um novo oceano, oferecendo insights cruciais sobre o passado e o futuro geológico da Terra. A paisagem africana, vasta e antiga, continua a nos surpreender com a promessa de um futuro irreconhecível.








