A doutrina “América Primeiro” redefiniu a política externa dos Estados Unidos, gerando desafios para a cooperação multilateral e a ordem global. Este artigo explora como nações e instituições podem atuar para que o mundo consiga reenquadrar essa abordagem, fomentando um futuro mais colaborativo e estável.

Desde sua ascensão, essa postura provocou tensões comerciais, questionou alianças tradicionais e minou acordos internacionais cruciais, como o Acordo de Paris e o pacto nuclear com o Irã. Tais movimentos criaram uma lacuna de liderança em questões urgentes, desde as mudanças climáticas até a segurança cibernética, demandando uma resposta coordenada.

O impacto dessa política ressoa em capitais ao redor do globo, forçando países a reavaliar suas estratégias diplomáticas e econômicas. Em um cenário de crescentes interdependências, a necessidade de um retorno ao multilateralismo se torna cada vez mais evidente para enfrentar crises que transcendem fronteiras nacionais.

O papel do multilateralismo e da diplomacia persistente

Para reenquadrar a política “América Primeiro”, a comunidade internacional deve fortalecer suas próprias estruturas e engajar-se em uma diplomacia robusta. Instituições como as Nações Unidas, a Organização Mundial do Comércio (OMC) e blocos regionais como a União Europeia e a ASEAN, tornam-se plataformas ainda mais vitais para a coordenação de políticas e o estabelecimento de normas globais.

Um relatório recente do Council on Foreign Relations (CFR) destaca que, mesmo diante de retrocessos, a resiliência do sistema multilateral é crucial. “A persistência em frameworks colaborativos, mesmo com a ausência de um ator chave, pode criar um ambiente de pressão e incentivo para um eventual retorno à mesa de negociações”, afirma o cientista político Dr. David Miller, especialista em relações internacionais.

Além de fortalecer as instituições existentes, a formação de coalizões ad hoc e “minilateralismos” para tratar de questões específicas – como a segurança energética ou a saúde global – permite que nações avancem em agendas comuns, demonstrando a eficácia da cooperação. Essa abordagem mostra que o mundo não está passivo, mas ativamente buscando soluções conjuntas.

Economia global e as pressões internas nos EUA

A interdependência econômica global oferece uma alavanca significativa para influenciar a política externa dos EUA. As cadeias de suprimentos complexas e o volume de comércio internacional significam que o isolamento econômico imposto pela política “América Primeiro” gera custos substanciais não apenas para parceiros, mas também para a própria economia americana.

Um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2023 apontou que o protecionismo pode levar a uma desaceleração do crescimento global e um aumento da inflação, afetando diretamente consumidores e empresas nos Estados Unidos. Setores-chave da economia americana, dependentes de exportações e importações, frequentemente advogam por políticas mais abertas e colaborativas.

Internamente, há um debate contínuo nos EUA sobre o melhor caminho para o país. Grupos de interesse empresarial, think tanks e partes da opinião pública americana frequentemente defendem um papel mais engajado e multilateralista. A dinâmica política interna e as eleições podem, portanto, ser influenciadas por esses argumentos, abrindo espaço para uma reorientação da política externa. Conforme análise da Brookings Institution, a percepção do público sobre os benefícios da cooperação internacional pode ser um fator decisivo.

Reenquadrar a política “América Primeiro” não é um processo simples ou unilateral, mas uma construção multifacetada que exige paciência e estratégia. Ao fortalecer o multilateralismo, demonstrar os custos do isolamento e apoiar vozes internas nos EUA que defendem a cooperação, o mundo pode influenciar uma reorientação em direção a uma ordem global mais estável. O futuro dependerá da capacidade coletiva de construir pontes, mesmo quando as marés políticas tentam erigir muros.