A análise de Richard N. Haass em “A Country and a World Out of Balance” revela como a ascensão do nacionalismo e a fragmentação do multilateralismo estão remodelando a geopolítica mundial. Este desequilíbrio global, acentuado por crises climáticas e tensões econômicas, desafia a estabilidade e a cooperação entre nações.

O cenário internacional atual, marcado por conflitos regionais e disputas comerciais, ecoa as preocupações levantadas por Haass, um dos mais respeitados diplomatas e pensadores da política externa americana. Ele argumenta que o sistema pós-Guerra Fria, outrora pautado por instituições e normas liberais, está em franca deterioração, gerando um ambiente de incerteza sem precedentes.

Potências emergentes buscam redefinir suas esferas de influência, enquanto desafios transnacionais como pandemias e cibersegurança expõem a fragilidade de abordagens isoladas. Essa complexidade exige uma compreensão aprofundada das forças que impulsionam a instabilidade e o atual desequilíbrio global, impactando desde as grandes decisões de Estado até a vida cotidiana.

As raízes do desequilíbrio: nacionalismo e o declínio do multilateralismo

O enfraquecimento das instituições multilaterais é um pilar central na tese de Haass. A ascensão de governos com pautas nacionalistas e protecionistas em diversas partes do mundo tem corroído a base da cooperação internacional. “A ideia de que os estados podem resolver sozinhos os grandes problemas do século XXI é uma ilusão perigosa”, escreve Haass em sua obra, ecoando a visão de muitos analistas do Conselho de Relações Exteriores.

A competição estratégica entre Estados Unidos e China, por exemplo, não se limita apenas à economia e tecnologia, mas se estende a uma disputa por influência normativa e ideológica, minando consensos globais. Ao mesmo tempo, a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 demonstrou a vulnerabilidade da ordem baseada em regras, reavivando tensões da Guerra Fria e expondo fissuras profundas na segurança europeia, conforme detalhado em análises da Chatham House.

Esse movimento de retirada do multilateralismo é visível também na dificuldade de se alcançar acordos significativos em questões cruciais como a proliferação nuclear e a reforma de organismos internacionais. O foco em interesses nacionais imediatos, muitas vezes em detrimento de soluções coletivas, agrava o cenário de desequilíbrio global, tornando a governança de problemas compartilhados cada vez mais desafiadora.

Impactos sistêmicos e a busca por uma nova ordem

As consequências do desequilíbrio global se manifestam em múltiplas frentes. A crise climática, por exemplo, não é apenas um problema ambiental, mas uma ameaça existencial que exige coordenação sem precedentes. A falta de progresso em metas climáticas globais, como as estabelecidas em acordos como o de Paris, é um reflexo direto da fragmentação política, com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) alertando sobre os riscos crescentes.

Economicamente, a interdependência global, antes vista como um fator de estabilidade, agora expõe vulnerabilidades. Crises na cadeia de suprimentos, flutuações de preços de commodities e a persistência de desigualdades sociais intensificam a pressão sobre governos e populações. O Banco Mundial tem apontado para a reversão de avanços na redução da pobreza em algumas regiões, em parte devido à instabilidade geopolítica e crises sucessivas.

Apesar do cenário complexo, Haass não sugere um abandono completo da esperança. Ele defende a necessidade de um “multilateralismo à la carte”, onde a cooperação se dá em torno de questões específicas e pragmáticas, mesmo que a visão de uma ordem liberal unificada esteja em xeque. A busca por uma nova ordem, ou ao menos por mecanismos que mitiguem o desequilíbrio global, passa por reconhecer a realidade atual e adaptar as estratégias de engajamento.

A visão de “A Country and a World Out of Balance” serve como um alerta para a urgência de repensar a governança global. Embora o caminho para a estabilidade seja incerto, a compreensão das forças em jogo é o primeiro passo para mitigar os riscos e construir um futuro mais cooperativo. O desafio reside em encontrar pontos de convergência em um mundo cada vez mais fragmentado, onde a interdependência exige soluções conjuntas, mesmo diante de profundas divergências.