A política externa dos Estados Unidos em relação à China tem evoluído significativamente após a era Trump, buscando uma abordagem multifacetada que equilibra competição estratégica e a gestão de riscos. Sob a administração Biden, a estratégia EUA pós-Trump China se consolidou em pilares de investimento doméstico, alianças e rivalidade tecnológica, distanciando-se de confrontos diretos, mas mantendo a pressão. Este novo panorama reflete uma complexa teia de interesses econômicos e geopoléticos globais.

A transição de uma postura mais unilateral e tarifária da gestão anterior para um enfoque em coordenação com aliados marca uma mudança crucial. Washington reconhece a China como um competidor estratégico de longo prazo, mas também como um ator indispensável em questões como o clima e a estabilidade financeira global. A necessidade de reavaliar as cadeias de suprimento e a segurança tecnológica impulsiona grande parte das decisões atuais.

Dados recentes do US Census Bureau mostram que, embora o déficit comercial com a China tenha atingido seu ponto mais baixo em mais de uma década em 2023, a interdependência econômica persiste. A administração Biden tem focado em fortalecer a resiliência econômica interna e de seus parceiros, visando reduzir vulnerabilidades estratégicas.

Competição tecnológica e resiliência econômica

O cerne da estratégia EUA pós-Trump China reside na intensa competição tecnológica, especialmente em semicondutores e inteligência artificial. Washington tem implementado rigorosos controles de exportação para impedir que Pequim adquira tecnologias avançadas que possam ser usadas para modernizar suas forças armadas. Segundo um relatório do Center for Strategic and International Studies (CSIS), esses controles visam frear o avanço chinês em áreas críticas.

Paralelamente, os EUA investem maciçamente em sua própria capacidade de fabricação de chips, como exemplificado pela Lei CHIPS e Ciência de 2022. Esta legislação busca revitalizar a indústria doméstica e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros, um movimento estratégico para a segurança nacional. A ideia é criar cadeias de suprimento mais robustas e “amigáveis” (friend-shoring), diversificando riscos geopolíticos.

A política comercial, embora menos focada em tarifas diretas, ainda utiliza ferramentas para proteger setores considerados vitais. A pressão sobre empresas chinesas com laços governamentais ou militares continua, refletindo uma preocupação com a segurança de dados e a propriedade intelectual. A meta é garantir que a competição seja justa e baseada em regras internacionais, sem ceder terreno em inovação.

Alianças e segurança no Indo-Pacífico

Um pilar central da abordagem pós-Trump é o reforço das alianças regionais e globais, contrastando com a tendência unilateralista anterior. A administração Biden revitalizou grupos como o Quad (Estados Unidos, Austrália, Índia e Japão) e estabeleceu a parceria AUKUS com Austrália e Reino Unido. Essas coalizões visam conter a crescente influência militar e econômica da China no Indo-Pacífico.

A estabilidade no Estreito de Taiwan permanece uma questão sensível e prioritária para os EUA, que mantêm uma política de “ambiguidade estratégica”, mas reforçam a capacidade de defesa da ilha. O Departamento de Estado dos EUA frequentemente reitera seu compromisso com a paz e estabilidade na região. A navegação no Mar do Sul da China também é um ponto de atrito, com os EUA defendendo a liberdade de navegação.

Além da segurança, essas alianças servem como plataformas para coordenação em temas como direitos humanos e governança democrática. A diplomacia multilateral busca apresentar uma frente unida contra práticas que Washington considera contrárias à ordem internacional baseada em regras. A estratégia é, portanto, multifacetada, envolvendo tanto a dissuasão militar quanto a diplomacia econômica e de valores.

A estratégia EUA pós-Trump China representa uma recalibragem complexa, reconhecendo a inevitabilidade da competição, mas buscando evitar a escalada para conflitos abertos. O foco em fortalecer a base econômica e tecnológica doméstica, enquanto se constrói uma rede robusta de alianças, define o caminho. Os desafios futuros incluem a gestão de pontos de atrito como Taiwan e o Mar do Sul da China, além de encontrar áreas de cooperação em questões globais urgentes. O equilíbrio entre rivalidade e coexistência moldará as próximas décadas da geopolítica global.