A indústria do Leste Asiático enfrenta um período de intensa reestruturação, impulsionado pela imposição de tarifas imprevisíveis dos Estados Unidos e pela mudança na estrutura econômica da China. Japão e Coreia do Sul sentem a crescente pressão.

Outrora pilares de uma robusta cadeia de valor global, essas economias lidam com um cenário comercial alterado, conforme apontado por análises recentes. O esvaziamento industrial na região desafia modelos de crescimento estabelecidos, exigindo novas estratégias para preservar setores vitais.

A dinâmica comercial e de investimento na Ásia Oriental, bem como a conformação das cadeias de valor globais, passaram por uma transformação fundamental nos últimos anos. Segundo Keun Lee, em artigo para o Project Syndicate, publicado em janeiro de 2026, a adoção de tarifas pelos Estados Unidos é um fator primordial nessa mudança.

Esse cenário é complexo. Potências exportadoras como Japão e Coreia do Sul já registravam contração na atividade industrial em setembro de 2025. Pesquisas privadas indicavam que as tarifas dos EUA afetaram a manufatura em toda a Ásia, ofuscando o desempenho chinês. Isso mantém a pressão sobre os formuladores de políticas para sustentar a recuperação econômica.

As pressões externas e a reestruturação regional

As tarifas americanas se tornaram uma força desestabilizadora. Em julho de 2025, o então presidente Donald Trump notificou 14 parceiros comerciais, incluindo Coreia do Sul e Japão. As tarifas mínimas de 25% sobre produtos importados entraram em vigor a partir de agosto.

Essa medida intensificou a vulnerabilidade de países dependentes de exportações para os EUA. Além das barreiras tarifárias, a ascensão econômica da China desempenha um papel crucial na desindustrialização do Leste Asiático.

A China tem se movido para segmentos de maior valor agregado nas cadeias de produção. Sua capacidade de produzir bens de qualidade a custos competitivos, impulsionada por uma integração interna eficiente, tem superado indústrias mais antigas no Japão e na Coreia.

Dados de outubro de 2024 mostraram que a atividade industrial do Japão, medida pelo PMI do au Jibun Bank, contraiu pelo quarto mês consecutivo, atingindo 49,0. A demanda fraca, tanto interna quanto externa, especialmente na China e nos EUA, foi a principal razão.

Na Coreia do Sul, empresas estão transferindo parte da produção para a Europa e o Sudeste Asiático. Essa tendência ameaça sua posição como polo manufatureiro global, indicando uma profunda mudança estrutural na região.

Respostas estratégicas e o futuro da indústria

Diante deste quadro de desindustrialização, Japão e Coreia do Sul buscam caminhos para mitigar os impactos. Aprofundar o engajamento mútuo e com outros parceiros confiáveis é visto como essencial para salvaguardar suas indústrias, conforme sugere Keun Lee.

A reestruturação das cadeias de valor globais está impulsionando economias emergentes para novas posições. A China, por exemplo, expande sua rede de produção para o Sudeste Asiático, América Latina e Europa Central e Oriental.

Para o Japão, a perspectiva de crescimento em 2025 (entre 1,5% e 1,8%) é baseada em estímulos governamentais e aumentos salariais. No entanto, riscos externos, como o retorno de tarifas americanas, podem reduzir o PIB em 0,13 ponto percentual.

O envelhecimento populacional continua a ser um desafio estrutural para o Japão. A Coreia do Sul, além das pressões comerciais, lida com instabilidade política interna, que pode afetar a confiança dos investidores e a estabilidade econômica.

A diversificação de mercados e a inovação tecnológica se mostram imperativas. Investimentos em descarbonização e digitalização no Japão, por exemplo, são medidas políticas que visam enfrentar desafios estruturais e manter a competitividade.

A colaboração regional e a adaptação a um cenário global em constante mudança serão cruciais para a resiliência industrial. A capacidade de inovar e de forjar novas alianças determinará sua trajetória econômica em meio a essa transformação global.

O panorama para a indústria do Leste Asiático em 2026 é de contínua adaptação. A fragilidade das cadeias de suprimentos e a crescente imprevisibilidade comercial exigem que Japão e Coreia do Sul, e a região como um todo, reavaliem profundamente suas estratégias de produção e comércio.

O futuro da manufatura asiática dependerá da agilidade em responder a um mundo menos globalizado e mais fragmentado, com ênfase na inovação e na construção de parcerias estratégicas eficazes.