A CES 2026, a maior feira de tecnologia do mundo, realizada em Las Vegas entre 6 e 9 de janeiro, consolidou a inteligência artificial (IA) como o epicentro das inovações, especialmente na indústria do entretenimento e na economia criativa. Líderes do setor debateram intensamente o impacto da IA na produção de conteúdo, no papel dos criadores e na evolução das tecnologias imersivas, sinalizando uma era de transformações profundas e desafios sem precedentes.
Este ano, a IA transcendeu a condição de mera vertical tecnológica, tornando-se a “espinha dorsal” que estrutura produtos e serviços em todos os setores, conforme destacou Grace Venes-Escaffi, especialista em comunicação da CES e da Consumer Technology Association (CTA). A feira apresentou mais de 25 painéis e eventos dedicados ao entretenimento, abordando tanto o lado tradicional dos estúdios quanto o universo em expansão dos criadores de conteúdo digital. Discussões sobre as capacidades cinematográficas da IA, seu impacto na publicidade e a relevância da economia criadora dominaram a agenda.
Apesar de uma relutância inicial de muitos criativos em Hollywood, que expressaram preocupações com a tecnologia e ferramentas de IA, o tom geral na CES 2026 foi de otimismo. Especialistas defendem que a IA pode ser uma aliada, ajudando artistas a potencializar sua criatividade, em vez de suprimi-la ou substituí-la.
A era da inteligência artificial no palco do entretenimento
A Fast Company reportou que Dwayne Koh, chefe de criação da Leonardo.ai, afirmou que as ferramentas de IA “nivelaram o campo de jogo”, tornando mais fácil para qualquer pessoa contar histórias que antes não teria oportunidade de expressar. Essa democratização se manifesta em avanços concretos, como a redução significativa do tempo em tarefas de design de jogos, de 30-40 horas para apenas 18 horas com o auxílio da IA generativa, permitindo aos criadores focar na visão artística.
Grandes marcas apresentaram inovações que redefinem a experiência de consumo de conteúdo. A Samsung, por exemplo, revelou um portfólio completo de TVs com IA, incluindo a Micro RGB de 130 polegadas, e o Vision AI Companion, que oferece sugestões de conteúdo personalizadas, modos inteligentes para esportes e cinema, e controle de áudio aprimorado. A Dolby Laboratories destacou o Dolby Vision 2 e o Dolby AC-4, prometendo imagens mais realistas e diálogos mais claros em experiências de streaming.
A TCL também demonstrou como a IA eleva a qualidade de imagem e som, possibilitando interações mais inteligentes e aprimorando a geração de conteúdo, além de apresentar os óculos de realidade aumentada RayNeo Air 4 Pro. O Google, por sua vez, integrou o Gemini à Google TV, permitindo buscar conteúdos em linguagem natural, receber recomendações personalizadas e ajustar configurações por voz. Até mesmo no universo dos jogos, a Razer introduziu o Project AVA, um assistente de mesa com IA holográfica, e o Project Motoko, um headset de realidade aumentada com percepção contextual e tradução em tempo real.
Criadores e o novo ecossistema digital
A economia dos criadores ganhou um espaço ampliado na CES 2026, com o “CES CreatorSpace” oferecendo três dias de sessões dedicadas a métricas, parcerias e o futuro desse segmento. Essa expansão sublinha uma mudança de paradigma, onde criadores de conteúdo não precisam mais depender exclusivamente de estúdios tradicionais para alcançar grandes audiências, com plataformas como o modelo FAST (Free Ad-supported Streaming TV) conectando a cultura digital à televisão tradicional.
Hannah Elsakr, vice-presidente de novos negócios de IA generativa da Adobe, comparou a atual apreensão com a IA ao lançamento do Photoshop nos anos 90, quando também houve resistência de criativos que viam a ferramenta como uma ameaça ao artesanato. Segundo ela, a IA é mais uma ferramenta no kit para impulsionar a criatividade de diretores, artistas e atores.
Contudo, a rápida evolução da IA não vem sem debates cruciais. Questões sobre personagens, imagens e materiais protegidos por direitos autorais ainda são proeminentes, especialmente após a estreia de “Tilly Norwood”, uma personagem inteiramente criada por IA, e a remoção de músicas geradas por IA de plataformas de streaming devido a problemas de direitos autorais. A TELA VIVA News destacou que a CES 2026 incluiu debates regulatórios com a Federal Communications Commission (FCC) e a Federal Trade Commission (FTC), abordando como a inovação impacta leis e regulações, incluindo o futuro da IA.
A CES 2026 reafirma que a inteligência artificial não é apenas uma tendência, mas uma força transformadora no entretenimento e na economia criativa. Embora os desafios éticos e regulatórios persistam, a feira mostrou um futuro onde a IA atua como catalisador da inovação, capacitando criadores e redefinindo a forma como consumimos e interagimos com o conteúdo. A conciliação entre o avanço tecnológico e a responsabilidade criativa será o pilar para o desenvolvimento sustentável deste novo ecossistema.








