Astrônomos operando o Telescópio Espacial Hubble identificaram um tipo inteiramente novo de objeto cósmico: uma nuvem rica em gás, dominada por matéria escura, mas completamente desprovida de estrelas. Apelidado de “Cloud-9”, este objeto singular, localizado a 2.000 anos-luz da Terra, é o primeiro exemplo confirmado de uma “galáxia falha”, um bloco de construção primordial do universo que nunca se acendeu. A descoberta, noticiada em 9 de janeiro de 2026 pela ScienceDaily e outras publicações, oferece uma rara janela para a evolução cósmica e a natureza da matéria escura.

Este achado valida teorias de longa data sobre a existência de galáxias sem estrelas, conhecidas como Nuvens H I Limitadas por Reionização (RELHICs), que os cientistas previam há anos, mas cuja confirmação direta permanecia ilusória. O fato de não emitir luz permite uma compreensão mais profunda dos componentes escuros do universo, que são notoriamente difíceis de estudar.

A matéria escura, um dos maiores mistérios da cosmologia, constitui cerca de 27% do universo, agindo como a “cola invisível” que mantém as galáxias e aglomerados galácticos unidos. Sua natureza enigmática reside no fato de que não interage com a luz ou com a matéria ordinária, sendo detectável apenas por seus efeitos gravitacionais. A Cloud-9 oferece uma oportunidade única para observar um “halo” puro de matéria escura sem a interferência do brilho das estrelas.

A revelação de uma galáxia falha

A Cloud-9 é considerada uma relíquia das primeiras fases da formação de galáxias, um objeto que não conseguiu acumular gás suficiente para desencadear a formação estelar. “Esta é a história de uma galáxia falha”, afirmou Alejandro Benitez-Llambay, investigador principal do programa da Universidade de Milano-Bicocca, Itália, em declarações divulgadas pela Agência Espacial Europeia (ESA) e pela NASA. Ele complementa que “na ciência, geralmente aprendemos mais com os fracassos do que com os sucessos. Neste caso, não ver estrelas é o que prova que a teoria está correta”.

As observações de acompanhamento realizadas pela Advanced Camera for Surveys do Telescópio Espacial Hubble foram cruciais para confirmar a ausência de estrelas dentro da Cloud-9. Antes das observações do Hubble, argumentava-se que poderia ser uma galáxia anã fraca cujas estrelas não eram visíveis com telescópios terrestres devido à falta de sensibilidade. No entanto, Gagandeep Anand, autor principal do Space Telescope Science Institute (STScI), Baltimore, EUA, confirmou que “com a Advanced Camera for Surveys do Hubble, conseguimos determinar que não há nada lá”.

Um vislumbre do universo escuro

A Cloud-9 é uma “janela para o universo escuro”, como explicou Andrew Fox, membro da equipe da AURA/STScI para a ESA. A existência de RELHICs valida as teorias dos astrônomos sobre a matéria escura e a formação de galáxias, sugerindo que muitos pequenos halos de matéria escura permanecem inteiramente desprovidos de estrelas. A análise de objetos como a Cloud-9 pode ajudar a refinar os modelos cosmológicos e aprofundar o entendimento sobre as propriedades da matéria escura, uma vez que diferentes tipos de partículas de matéria escura resultariam em estruturas distintas.

A missão Euclid da ESA, lançada em julho de 2023, tem como objetivo criar um mapa tridimensional da distribuição da matéria escura no universo e analisar a expansão acelerada do universo, impulsionada pela energia escura. Ao observar bilhões de galáxias, a Euclid busca inferir como a matéria escura está distribuída e como a estrutura da matéria mudou ao longo do tempo, complementando descobertas como a da Cloud-9 e fornecendo novas pistas sobre a identidade da matéria escura.

A descoberta da Cloud-9 abre novas perspectivas para a pesquisa cosmológica, indicando a provável existência de muitas outras estruturas pequenas e dominadas por matéria escura, as “galáxias falhas”. Estudar esses objetos oferece um caminho inovador para entender as partes do universo que permanecem ocultas à observação direta, desafiando os cientistas a desenvolverem novas abordagens para mapear a tapeçaria cósmica e desvendar os segredos da matéria escura e da evolução primordial do nosso cosmos.