Um novo relatório da empresa de inteligência blockchain TRM Labs revelou que o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) movimentou aproximadamente US$ 1 bilhão por meio de duas exchanges de criptomoedas registradas no Reino Unido desde 2023. Esta operação clandestina permitiu à força militar iraniana evadir sanções econômicas internacionais, expondo lacunas significativas na supervisão do setor de ativos digitais globalmente.

A análise da TRM Labs, divulgada recentemente, aponta que as exchanges Zedcex e Zedxion, embora registradas separadamente no Reino Unido, operavam como uma única entidade financeira. A maior parte das transações foi realizada utilizando Tether (USDT), uma stablecoin pareada ao dólar, na blockchain TRON. Este método demonstra uma crescente sofisticação por parte de atores estatais na exploração de criptoativos para fins ilícitos, superando as restrições bancárias tradicionais.

As descobertas sublinham um cenário preocupante onde a promessa de liberdade financeira das criptomoedas é cooptada para manobras geopolíticas, com o Irã já tendo explorado a mineração de bitcoins e o uso de criptoativos para exportações militares como forma de mitigar o impacto das sanções. A capacidade do IRGC de movimentar tais somas através de plataformas registradas no Reino Unido levanta questões urgentes sobre a eficácia das regulamentações e a diligência das empresas do setor em jurisdições-chave.

A rota clandestina e os desafios regulatórios

Os investigadores da TRM Labs identificaram que as carteiras associadas à Zedcex e Zedxion rotearam fundos entre carteiras ligadas ao IRGC, intermediários offshore e empresas de cripto iranianas. A rede é ainda mais complexa, com alegações de que as exchanges têm ligações com Babak Zanjani, um financista iraniano previamente sancionado por auxiliar o IRGC na lavagem de receitas de petróleo. Essa conexão sugere uma continuidade de redes financeiras bem estabelecidas que operam sob sanções.

Ari Redbord, chefe global de políticas da TRM Labs, destacou que este caso não se trata de uso oportunista de criptoativos, mas sim de uma organização militar sancionada operando uma infraestrutura de exchange com marca própria offshore. Ele ressalta como a Zedcex ilustra que as criptomoedas podem funcionar como um sistema financeiro paralelo quando a propriedade beneficiária, o licenciamento e o controle da plataforma são obscurecidos. As transações ligadas ao IRGC representaram uma parcela significativa da atividade dessas exchanges, atingindo 87% em 2024 e totalizando mais de US$ 1 bilhão ao longo de dois anos.

Criptoativos e a evasão de sanções: um cenário global

O uso de criptomoedas para contornar sanções não é um fenômeno isolado do Irã. Relatórios recentes da Chainalysis, uma empresa de análise blockchain, indicam que o crime envolvendo criptoativos atingiu US$ 154 bilhões em 2025, impulsionado por um crescimento de 694% nos recursos enviados a entidades sob sanções internacionais. Rússia e Coreia do Norte, ao lado do Irã, são apontados como líderes na exploração de ativos digitais para contornar embargos econômicos.

Este panorama global coloca em xeque a eficácia das estruturas regulatórias existentes. No Reino Unido, por exemplo, avanços na regulamentação de stablecoins e exchanges foram anunciados para 2025 e 2026, com o objetivo de criar um ambiente mais transparente e seguro. No entanto, casos como o da Guarda Revolucionária Iraniana revelam a complexidade de fiscalizar plataformas que podem mascarar suas operações, mesmo sob jurisdições que buscam maior controle sobre o setor de criptoativos.

A movimentação de US$ 1 bilhão pelos Guardas Revolucionários do Irã através de exchanges registradas no Reino Unido serve como um alerta contundente para a comunidade internacional. É imperativo que reguladores e legisladores aprimorem a colaboração transfronteiriça e desenvolvam mecanismos mais robustos de identificação e combate a atividades ilícitas no espaço cripto. A sofisticação crescente de atores estatais na evasão de sanções exige uma resposta igualmente evoluída, garantindo que a inovação tecnológica não se torne uma ferramenta para desestabilização geopolítica e financiamento de grupos militantes.