Uma descoberta notável no Grande Lago Salgado de Utah revelou uma nova espécie de verme, nomeada Diplolaimelloides woaabi, em homenagem à herança indígena local. Este diminuto nematoide representa o terceiro grupo de animais conhecido por prosperar nas águas hipersalinas do lago, juntando-se aos camarões e moscas de salmoura, essenciais para aves migratórias. A identificação, liderada por cientistas da Universidade de Utah, abre um novo capítulo na compreensão da biodiversidade em ambientes extremos e o futuro do lago.
A equipe de pesquisa da Universidade de Utah, com destaque para o professor de biologia Michael Werner e a então pesquisadora de pós-doutorado Julie Jung, publicou os achados que descrevem o minúsculo verme redondo. O nome Diplolaimelloides woaabi foi escolhido em consulta com os anciãos da Nação Shoshone do Noroeste, que sugeriram “Wo’aabi”, uma palavra indígena para “verme”. Esta espécie parece ser endêmica do Grande Lago Salgado, o que significa que não foi encontrada em nenhum outro lugar do planeta.
A descoberta dessa criatura no Lago Salgado é particularmente intrigante, pois amplia significativamente o conhecimento sobre a vida em um dos ecossistemas mais singulares e desafiadores da Terra. Sua presença sugere uma complexidade biológica até então subestimada, fornecendo pistas vitais sobre a história do lago e possíveis indicadores de sua saúde futura.
A importância dos nematoides e a singularidade da descoberta
Os nematoides são animais incrivelmente difundidos, presentes em quase todos os ambientes imagináveis, desde o gelo polar a fontes hidrotermais em alto-mar e o solo de nossos próprios quintais. A maioria tem menos de um milímetro, o que os torna frequentemente imperceptíveis. Com mais de 250.000 espécies identificadas, eles constituem o filo animal mais numeroso em ecossistemas terrestres e aquáticos, representando cerca de 80% da vida animal no solo e 90% no fundo do oceano.
No entanto, até 2022, não havia registros definitivos de nematoides no Grande Lago Salgado. Essa situação mudou com as expedições de campo lideradas por Julie Jung, que coletou amostras em microbialitos – estruturas endurecidas formadas por comunidades microbianas no leito do lago. A confirmação taxonômica de que se tratava de uma nova espécie levou três anos de trabalho intensivo, conforme relatado pela própria Jung, agora professora assistente na Weber State University.
A descoberta do Diplolaimelloides woaabi eleva os nematoides ao posto de terceiro grupo animal conhecido por sobreviver nas águas extremamente salgadas do Grande Lago Salgado. Os outros dois são os camarões e as moscas de salmoura, que desempenham um papel crucial como fonte de alimento para milhões de aves migratórias que fazem escala no lago anualmente.
O enigma da origem e o futuro do Grande Lago Salgado
A existência do Diplolaimelloides woaabi no Grande Lago Salgado levanta duas questões fundamentais para os cientistas: como esses vermes chegaram ao lago e qual é o seu papel exato no ecossistema. A equipe de Werner suspeitou inicialmente que os nematoides pertenciam à família Monhysteridae, um grupo antigo conhecido por sua capacidade de sobreviver em condições extremas, incluindo ambientes de alta salinidade.
Análises genéticas e físicas confirmaram que a espécie pertence ao gênero Diplolaimelloides, geralmente encontrado em águas costeiras marinhas e salobras. Isso torna a presença no Grande Lago Salgado, localizado a cerca de 1.280 metros acima do nível do mar e a aproximadamente 1.300 quilômetros do oceano mais próximo, um verdadeiro mistério. Uma teoria sugere que os vermes podem ter sobrevivido a mudanças drásticas na salinidade ao longo de milhões de anos, desde a época do antigo Lago Bonneville, um vasto lago de água doce.
Outra hipótese intrigante é que os nematoides foram transportados por aves migratórias de lagos salinos em outras partes do continente, como a América do Sul. A pesquisa em andamento, que inclui a coleta de amostras de diferentes regiões do lago, também indica a possível existência de uma segunda espécie de nematoide desconhecida, aumentando a complexidade e o fascínio da vida neste ambiente único.
A descoberta desses nematoides oferece uma nova lente para monitorar a saúde do Grande Lago Salgado, que enfrenta desafios crescentes de diminuição do nível da água e aumento da salinidade, ameaçando seu frágil ecossistema. Compreender o papel desses novos habitantes pode ser crucial para os esforços de conservação e para antecipar as mudanças futuras nesse ambiente vital.









