A cada duas respirações que você toma, uma parte significativa do oxigênio inalado tem origem nos oceanos, gerado por minúsculas algas marinhas. Essa capacidade vital dos fitoplânctons, os produtores primários da vida aquática, depende surpreendentemente de um ingrediente escasso: o ferro. Uma pesquisa recente da Universidade Rutgers, publicada em 12 de janeiro de 2026 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, oferece uma compreensão mais clara de como esse processo essencial funciona e por que sua manutenção é crucial para a vida na Terra.

O estudo destaca que, sem quantidades adequadas de ferro, a fotossíntese dos fitoplânctons — o processo de converter energia luminosa em energia química e liberar oxigênio — desacelera ou até para. Este micronutriente vital chega aos oceanos principalmente através da poeira transportada pelo ar, vinda de desertos e regiões áridas, e também pela água de degelo de geleiras. A professora Letícia Cotrim da Cunha, da UERJ, reforça a importância dos oceanos como sumidouros de CO₂, apesar dos desafios como o aumento da acidez.

As implicações desse elo invisível são vastas, estendendo-se desde a atmosfera que respiramos até o equilíbrio de ecossistemas marinhos complexos. Paul G. Falkowski, coautor do estudo e professor da Rutgers-New Brunswick, enfatiza que “cada duas respirações que você toma inclui oxigênio do oceano, liberado pelo fitoplâncton”. A pesquisa de sua equipe demonstra que o ferro atua como um fator limitante na capacidade do fitoplâncton de produzir oxigênio em vastas regiões oceânicas.

A engrenagem invisível da vida marinha

Os fitoplânctons são a base das cadeias alimentares oceânicas, sustentando uma vasta gama de vida marinha. Eles são a fonte primária de alimento para o krill, minúsculos crustáceos que, por sua vez, servem de sustento para quase todos os animais do Oceano Antártico, incluindo pinguins, focas, morsas e baleias. Quando os níveis de ferro caem, a produtividade do fitoplâncton é comprometida, o que reduz a quantidade de alimento disponível para esses animais de níveis tróficos superiores. Essa interrupção pode levar a uma diminuição nas populações dessas criaturas majestosas, alterando profundamente o ecossistema marinho.

Heshani Pupulewatte, principal autora do estudo e pesquisadora assistente na Rutgers, conduziu uma extensa pesquisa de campo, passando 37 dias no mar entre 2023 e 2024. A bordo de um navio de pesquisa britânico, ela mediu a fluorescência do fitoplâncton, um indicador da energia liberada quando a fotossíntese falha. Os resultados mostraram que, com a escassez de ferro, até 25% das proteínas que capturam luz se tornam “desacopladas” das estruturas que convertem essa energia em formas químicas utilizáveis. Isso significa que uma porção significativa da energia solar é desperdiçada, diminuindo a eficiência com que o fitoplâncton pode crescer e produzir oxigênio.

Impactos climáticos e o futuro do oxigênio do oceano

Há crescentes evidências de que as mudanças climáticas estão alterando os padrões de circulação oceânica e reduzindo a entrega de ferro aos mares. Embora a diminuição dos níveis de ferro não signifique que os humanos deixarão de respirar, os impactos nos ecossistemas marinhos podem ser graves. A redução na produtividade do fitoplâncton não afeta apenas a cadeia alimentar, mas também a capacidade do oceano de absorver dióxido de carbono da atmosfera, um serviço climático crucial.

A estratificação oceânica, fenômeno onde as águas superficiais mais quentes deixam de se misturar com as camadas profundas ricas em nutrientes, é uma das consequências do aquecimento global que pode impactar diretamente o fitoplâncton. Em um cenário onde a disponibilidade de ferro diminui, a resiliência desses microrganismos frente a outras pressões ambientais também é comprometida. Monitorar o fitoplâncton é essencial para entender a resposta do oceano às mudanças climáticas, como apontado por Frederico Brandini, oceanógrafo da USP, ao comentar estudos sobre a redução desses organismos.

A compreensão aprofundada de como o ferro controla a fotossíntese em nível molecular, demonstrada pelo estudo da Rutgers, é um passo fundamental para antecipar e, talvez, mitigar os efeitos das alterações climáticas nos nossos oceanos. Proteger esses ecossistemas é, em última instância, proteger a própria base da vida na Terra, garantindo que o “ingrediente minúsculo” continue a nutrir o oxigênio de cada respiração.