Biólogos da IA desvendam modelos de linguagem grandes, tratando-os como alienígenas. Mapear a complexidade interna dos LLMs é crucial para garantir seu uso seguro.

No centro da corrida tecnológica atual, os modelos de linguagem grandes (LLMs) como o GPT-4o, lançado pela OpenAI em 2024, representam um paradoxo de escala e complexidade. Um modelo de 200 bilhões de parâmetros, por exemplo, poderia cobrir uma cidade como São Francisco em papel.

Essa vastidão os torna incompreensíveis, até mesmo para seus criadores. Essa opacidade gera desafios significativos para a segurança e a confiabilidade da inteligência artificial.

Apesar do uso massivo por centenas de milhões de pessoas diariamente, a falta de entendimento sobre como os LLMs operam impede a mitigação eficaz de alucinações e a imposição de salvaguardas. Neste cenário, uma nova abordagem emerge, tratando LLMs como organismos complexos e desconhecidos.

Cientistas estão encarando esses sistemas como verdadeiros “xenomorfos” digitais, aplicando métodos inspirados na biologia para desvendar seus segredos internos.

A complexidade “biológica” dos modelos de linguagem

Diferente dos softwares tradicionais, que são construídos com lógica determinística, os LLMs são “cultivados” ou “evoluídos” por algoritmos de aprendizado complexos. Isso torna seu funcionamento interno opaco e imprevisível.

Josh Batson, cientista pesquisador da Anthropic, compara o processo ao crescimento de uma árvore. É possível direcioná-la, mas o caminho exato de seus galhos e folhas permanece incontrolável.

Os bilhões de números que compõem um modelo, conhecidos como parâmetros, são apenas o “esqueleto”. Quando um LLM está em funcionamento, esses parâmetros são usados para calcular “ativações”.

Essas ativações se propagam pelo modelo como sinais elétricos ou químicos em um cérebro. Entender essas cascatas de informações é o cerne da interpretabilidade mecânica.

Essa linha de pesquisa, segundo Batson, é uma “análise do tipo biológico”, distante da matemática ou da física, buscando compreender a “mente” da IA.

Decifrando o “cérebro” da inteligência artificial

Para mapear essas complexas redes internas, pesquisadores da Anthropic, OpenAI e Google DeepMind desenvolvem ferramentas inovadoras. Uma técnica notável é o uso de autoencoders esparsos, um tipo de rede neural que funciona de maneira mais transparente.

Esses autoencoders são treinados para mimetizar o comportamento de um LLM original, respondendo a comandos de forma similar. Ao observar como o modelo mimético opera, os cientistas conseguem revelar os mecanismos e caminhos internos do LLM, como um escaneamento cerebral.

A Anthropic, por exemplo, demonstrou que autoencoders esparsos podem decompor as ativações de transformadores em características mais interpretáveis. Isso ajuda a superar o problema da polissemiologia dos neurônios.

Essa abordagem permite identificar “features”, ou conceitos abstratos, que o modelo aprende, como a estrutura de um haicai ou um motivo de DNA. A OpenAI também desenvolveu modelos experimentais para tornar o funcionamento dos LLMs mais transparente.

O objetivo é entender por que eles alucinam ou tomam decisões inesperadas, melhorando a confiabilidade. A interpretabilidade de modelos de machine learning é vital para identificar vieses, aumentar a responsabilidade das decisões automatizadas e construir sistemas de IA mais justos e confiáveis.

Essa nova biologia da IA não busca apenas a compreensão acadêmica, mas visa a segurança e a eficácia de uma tecnologia cada vez mais presente em nosso cotidiano.

Compreender os LLMs como organismos complexos e em evolução é um passo fundamental para dominar seu potencial e mitigar seus riscos. A colaboração entre diferentes campos da ciência, como a biologia e a ciência da computação, é essencial para garantir um futuro da IA mais transparente e seguro para todos.