A Venezuela, detentora das maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, encontra-se em um ponto de inflexão crítico, onde a questão de quem lucrará com seu petróleo venezuelano se torna cada vez mais complexa. As sanções internacionais e a deterioração da infraestrutura petrolífera transformaram o cenário, limitando a capacidade de extração e exportação, mas não eliminando o interesse global por este recurso estratégico.

Desde a imposição de sanções abrangentes pelos Estados Unidos em 2019, o setor petrolífero venezuelano, dominado pela estatal PDVSA, tem enfrentado um declínio vertiginoso na produção. Contudo, uma flexibilização temporária das restrições em outubro de 2023, ligada a avanços democráticos, abriu uma janela de oportunidade e reconfigurou os potenciais beneficiários do fluxo de óleo bruto, ainda que por um período incerto.

Este movimento gerou um debate intenso sobre o futuro energético do país e as implicações geopolíticas para os atores envolvidos. A incerteza política interna da Venezuela, especialmente após decisões recentes sobre elegibilidade eleitoral, lança uma sombra sobre a continuidade dessas flexibilizações, mantendo a dinâmica do mercado em constante avaliação.

Os atores que capitalizam no atual cenário

No ambiente de sanções e licenças limitadas, um grupo seleto de países e empresas tem conseguido manter ou expandir sua participação no lucrativo, porém arriscado, mercado do petróleo venezuelano. A China desponta como um dos principais compradores, muitas vezes através de mecanismos de pagamento de dívida ou por meio de intermediários que navegam pelas restrições internacionais. Este relacionamento, muitas vezes opaco, permite à China garantir suprimentos energéticos a preços vantajosos, enquanto a Venezuela obtém o capital e os bens necessários.

Outros parceiros, como a Rússia e o Irã, também desempenham papéis significativos, oferecendo suporte técnico, equipamentos e expertise para manter as operações da PDVSA, além de servirem como rotas para contornar as sanções. Paralelamente, algumas empresas ocidentais, notadamente a Chevron dos Estados Unidos, receberam licenças específicas do Departamento do Tesouro dos EUA para operar na Venezuela. Essas licenças permitem a extração e exportação limitadas, principalmente para recuperar dívidas pendentes com a PDVSA, contribuindo para uma produção que, embora modesta, é vital para o país.

Empresas europeias como a espanhola Repsol e a italiana Eni também têm mantido participações em projetos conjuntos, beneficiando-se de acordos de troca de dívida por petróleo, o que as posiciona para um possível aumento de operações caso as sanções sejam permanentemente suspensas. A produção de petróleo venezuelano, que já ultrapassou os 3 milhões de barris por dia, estabilizou-se em torno de 700 a 800 mil barris diários em 2023, um volume ainda distante do seu potencial máximo, mas crucial para a economia local.

O potencial de uma abertura total e seus desafios

Se as sanções ao petróleo venezuelano fossem totalmente suspensas, o panorama de quem lucra mudaria drasticamente. Empresas petrolíferas ocidentais, com sua vasta capacidade de investimento e tecnologia avançada, estariam em posição privilegiada para revitalizar a indústria. O país necessita de bilhões de dólares em investimentos para reparar e modernizar sua infraestrutura, que sofreu anos de subinvestimento e má manutenção.

A entrada de capital e expertise de empresas dos EUA e da Europa poderia não apenas elevar a produção a níveis históricos, mas também introduzir práticas de gestão e governança mais transparentes. Isso beneficiaria a própria Venezuela, que poderia usar as receitas para estabilizar sua economia e financiar programas sociais. Contudo, os desafios são imensos. A instabilidade política, a insegurança jurídica e a percepção de corrupção sistêmica continuam a ser barreiras significativas para qualquer investimento de longo prazo. Além disso, a capacidade de absorção de grandes investimentos e a reestruturação da PDVSA seriam tarefas hercúleas.

Ainda que o fim das sanções represente uma oportunidade para diversificar as fontes globais de energia, a recuperação total da indústria petrolífera venezuelana exigirá tempo, estabilidade e um compromisso genuíno com reformas. O futuro do petróleo venezuelano, portanto, permanece um jogo de xadrez geopolítico onde os movimentos são ditados tanto pela economia quanto pela política.