Cientistas da Universidade do Texas em Austin descobriram o que está ligando inundações e secas em todo o planeta, revelando que esses eventos extremos não ocorrem aleatoriamente. Uma nova pesquisa aponta que os ciclos climáticos do El Niño e La Niña são os principais impulsionadores da sincronização de extremos hídricos em diferentes continentes. Este achado, publicado na revista AGU Advances, destaca que regiões distantes podem experimentar condições de umidade ou seca severas simultaneamente, com implicações significativas para a disponibilidade de água e a produção de alimentos globalmente.

A pesquisa, divulgada em um comunicado de imprensa da Universidade do Texas em Austin no ScienceDaily, analisou dados das últimas duas décadas para compreender melhor como inundações e secas se desenvolvem e se espalham. A compreensão desses padrões globais é crucial, pois as crises hídricas não são eventos isolados, mas parte de um sistema interconectado. Fenômenos como inundações e secas extremas podem interromper a vida diária, danificar ecossistemas e sobrecarregar economias locais e globais, tornando a previsão e a adaptação a esses eventos cada vez mais urgentes.

O impacto econômico desses eventos é notável, com desastres naturais gerando perdas seguradas que superaram US$ 100 bilhões em 2025, impulsionadas por incêndios florestais, inundações e tempestades severas. As mudanças climáticas intensificam o ciclo hidrológico, levando a tempestades mais fortes e secas prolongadas, o que afeta a agricultura, a indústria e o abastecimento de água.

O ritmo sincronizado do El Niño e La Niña

A Oscilação Sul do El Niño (ENSO), um padrão climático recorrente no Oceano Pacífico equatorial, desempenha um papel dominante na condução de mudanças extremas no armazenamento total de água em todo o mundo. Os pesquisadores usaram medições de gravidade dos satélites GRACE e GRACE Follow-On (GRACE-FO) da NASA para estimar o armazenamento total de água, que inclui rios, lagos, neve, gelo, umidade do solo e água subterrânea.

Essa abordagem permitiu aos cientistas observar como as condições extremas de umidade e seca estão conectadas em grandes distâncias. Por exemplo, o El Niño esteve associado a secas severas na África do Sul em meados dos anos 2000 e na Amazônia entre 2015 e 2016. Em contraste, a La Niña em 2010-2011 trouxe condições excepcionalmente úmidas para a Austrália, o sudeste do Brasil e novamente a África do Sul.

Para o estudo, extremos de umidade foram definidos como níveis de armazenamento de água acima do percentil 90 para uma determinada região, enquanto extremos de seca foram classificados como níveis abaixo do percentil 10. Essa metodologia permitiu uma análise detalhada da interconexão espacial dos eventos, fornecendo mais informações sobre os padrões globais que impulsionam as inundações e secas.

A mudança global nos padrões hídricos e suas consequências

Além de identificar o papel sincronizador do ENSO, a pesquisa revelou uma mudança mais ampla no comportamento global da água, ocorrida por volta de 2011-2012. Antes desse período, as condições de umidade incomuns eram mais prevalentes em escala mundial. No entanto, após 2012, os extremos de seca começaram a predominar.

Os cientistas atribuem essa mudança a um padrão climático de longa duração no Oceano Pacífico, que modula a forma como o ENSO afeta a água globalmente. Bridget Scanlon, coautora do estudo e professora pesquisadora na Bureau of Economic Geology da Jackson School of Geosciences da UT, enfatiza as consequências reais desses padrões globais. “Ao olhar para a escala global, podemos identificar quais áreas estão simultaneamente úmidas ou simultaneamente secas”, afirmou Scanlon. “E isso, é claro, afeta a disponibilidade de água, a produção de alimentos, o comércio de alimentos — todas essas questões globais.”

Essa sincronização de extremos hídricos amplifica os desafios para a segurança alimentar e hídrica em escala mundial. Quando múltiplas regiões enfrentam escassez ou excesso de água ao mesmo tempo, os impactos se propagam pela agricultura, pelo comércio e pelo planejamento humanitário, tornando as populações mais vulneráveis. A crise climática global, com seus impactos na água, representa uma ameaça significativa para a estabilidade econômica e social, com desastres capazes de levar milhões à pobreza.

A descoberta de que El Niño e La Niña orquestram os padrões de inundações e secas em escala planetária transforma a compreensão das crises hídricas. A identificação de uma mudança preocupante, com a predominância de extremos de seca na última década, exige uma reavaliação das estratégias de gestão de recursos hídricos e de planejamento para desastres. É imperativo que governos, organizações e comunidades colaborem para desenvolver abordagens adaptativas que mitiguem os riscos e garantam a sustentabilidade hídrica em um mundo onde os extremos climáticos estão cada vez mais conectados.