Cientistas, utilizando dados de duas sondas espaciais, revelaram a formação e evolução de uma supertempestade solar massiva entre abril e julho de 2024, a mais intensa desde 2003, demonstrando o impacto direto da atividade solar na Terra e na tecnologia moderna. De acordo com uma matéria publicada em 13 de janeiro de 2026 no ScienceDaily.com, baseada em pesquisas da ETH Zurich, essa observação trouxe insights cruciais.

A colaboração inédita entre a sonda europeia Solar Orbiter e o Observatório de Dinâmica Solar da NASA permitiu uma visão contínua de uma região solar ativa, a NOAA 13664, por quase três meses. Essa observação prolongada, um marco na física solar, forneceu insights cruciais sobre como essas tempestades extremas se desenvolvem e suas consequências para o nosso planeta.

A região NOAA 13664, que desencadeou as tempestades geomagnéticas mais fortes em mais de duas décadas, é um lembrete contundente da influência do Sol em nossas vidas diárias. Seus efeitos foram sentidos globalmente, desde espetaculares auroras boreais visíveis até em locais incomuns, como a Suíça, até a interrupção de sistemas tecnológicos essenciais.

A observação sem precedentes e seus desafios

O Sol completa uma rotação a cada 28 dias, o que limita a observação de uma região ativa por observadores terrestres a cerca de duas semanas. No entanto, a missão Solar Orbiter, lançada pela Agência Espacial Europeia (ESA) em 2020, revolucionou essa perspectiva, orbitando o Sol a cada seis meses e permitindo a visualização de áreas que normalmente estariam ocultas da Terra, incluindo seu lado distante.

Entre abril e julho de 2024, a Solar Orbiter capturou informações detalhadas da região NOAA 13664, uma das mais intensas dos últimos vinte anos. Em maio de 2024, quando essa região rotacionou para a vista da Terra, seus efeitos se tornaram imediatamente perceptíveis. Para compreender a fundo a formação e evolução de regiões solares tão extremas, uma equipe de pesquisa internacional, liderada por Louise Harra e Ioannis Kontogiannis da ETH Zurich, combinou os dados da Solar Orbiter com as observações contínuas do Observatório de Dinâmica Solar da NASA, que monitora o lado do Sol voltado para a Terra.

Essa fusão de dados possibilitou o rastreamento ininterrupto da NOAA 13664 por 94 dias, estabelecendo a mais longa série contínua de imagens já criada para uma única região ativa. “É um marco na física solar”, afirmou Kontogiannis. A equipe acompanhou a região desde seu surgimento em 16 de abril de 2024, no lado distante do Sol, até seu decaimento após 18 de julho de 2024, revelando mudanças que, de outra forma, teriam passado despercebidas.

Os impactos reais da supertempestade solar na tecnologia

As regiões ativas no Sol são caracterizadas por campos magnéticos poderosos e complexos. Elas se formam quando plasma altamente magnetizado emerge do interior solar e irrompe na superfície. Quando esses campos magnéticos se emaranham e se tornam instáveis, liberam energia de maneira dramática, gerando intensas explosões de radiação eletromagnética, conhecidas como erupções solares. Tais erupções também podem lançar grandes quantidades de plasma e partículas de alta energia no espaço, criando as tempestades solares que viajam por todo o sistema solar.

Embora as tempestades solares sejam célebres por produzir as deslumbrantes auroras, seus efeitos vão muito além de céus coloridos. Fenômenos climáticos espaciais severos podem desorganizar redes elétricas, interferir em sistemas de comunicação e aumentar a exposição à radiação para tripulações de aeronaves. Satélites também são vulneráveis; um exemplo recente ocorreu em fevereiro de 2022, quando 38 dos 49 satélites Starlink da SpaceX foram perdidos dois dias após o lançamento devido à atividade solar elevada.

Os impactos podem ser ainda mais próximos e preocupantes. “Até mesmo os sinais nas linhas ferroviárias podem ser afetados e mudar de vermelho para verde ou vice-versa”, destacou Harra, sublinhando a gravidade da situação. Em maio de 2024, a NOAA 13664 causou interrupções adicionais, afetando particularmente a agricultura digital moderna. “Sinais de satélites, drones e sensores foram perturbados, levando agricultores a perder dias de trabalho e resultando em perdas de safra com consideráveis prejuízos econômicos”, explicou a cientista.

A observação contínua do Sol e a compreensão de seus mecanismos são, portanto, cruciais para a segurança e a estabilidade de nossa infraestrutura tecnológica. “É um bom lembrete de que o Sol é a única estrela que influencia nossas atividades”, acrescenta Kontogiannis. “Vivemos com esta estrela, então é realmente importante observá-la e tentar entender como ela funciona e como afeta nosso ambiente”.