Hyung-tae Kim, CEO da Shift Up, estúdio sul-coreano por trás de títulos como Stellar Blade e Goddess of Victory: Nikke, defende que a inteligência artificial é uma ferramenta indispensável para nações menores competirem com o poderio de desenvolvimento de gigantes como China e Estados Unidos. Ele argumenta que a IA na indústria de jogos pode maximizar a capacidade de equipes menores, protegendo empregos e impulsionando a produtividade.

A declaração de Kim, feita durante o evento Estratégia de Crescimento Econômico da Coreia do Sul em 2026, ressalta um dilema crescente na indústria de games: a disparidade de recursos humanos entre estúdios de diferentes regiões. Enquanto grandes nações podem alocar milhares de desenvolvedores em um único projeto, países com menor população e investimento se veem em desvantagem.

A Coreia do Sul, conhecida por sua vibrante indústria de entretenimento e tecnologia, busca maneiras de manter sua relevância global. A aposta na inteligência artificial emerge como uma solução pragmática para contornar limitações de escala, transformando o desafio em uma oportunidade estratégica para otimizar talentos e processos criativos.

A IA como multiplicador de força de trabalho

Kim exemplificou a disparidade ao mencionar que a Shift Up destina cerca de 150 pessoas a um jogo, enquanto concorrentes chineses empregam entre 1.000 e 2.000 desenvolvedores. Segundo reportagem da GameMeca, citada por Automaton e repercutida no GamesIndustry.biz, ele vê a IA generativa como um meio para um único desenvolvedor treinado realizar o trabalho de cem, compensando a falta de capacidade competitiva em volume e qualidade de conteúdo. Esta perspectiva sugere que a tecnologia não visa substituir, mas sim amplificar a capacidade humana, tornando os profissionais mais valiosos ao dominarem as ferramentas de IA.

A integração de sistemas de IA em tarefas repetitivas ou na geração de assets iniciais, por exemplo, pode liberar os artistas e designers para focar em aspectos mais criativos e complexos do desenvolvimento de jogos. Estudos da EBAC, de fevereiro de 2024, indicam que a IA pode acelerar processos, baratear e democratizar a produção para empresas com menos acesso a diversos recursos. Além disso, 87% dos desenvolvedores de videogames já utilizam agentes de inteligência artificial em seu trabalho diário, conforme pesquisa publicada pela Xataka Brasil em agosto de 2025.

A discussão sobre o papel da inteligência artificial no desenvolvimento de jogos é, no entanto, altamente polarizada. Enquanto alguns veem a IA como uma ameaça aos empregos, outros a enxergam como uma ferramenta de empoderamento. A capacidade de automatizar a criação de texturas, modelos 3D básicos ou até mesmo a prototipagem de níveis pode acelerar significativamente o ciclo de produção, permitindo que estúdios menores lancem jogos mais ambiciosos com equipes enxutas. Histórias reais da Coreia do Sul, de outubro de 2025, mostram que tarefas repetitivas são tratadas por IA, liberando desenvolvedores para design criativo.

O debate ético e a adoção responsável da IA

Apesar do otimismo de Kim, a adoção da IA generativa no setor de jogos não é isenta de controvérsias. Recentemente, a Larian Studios, desenvolvedora belga de Divinity e Baldur’s Gate 3, gerou debate ao tentar incorporar IA na criação conceitual de seu próximo RPG Divinity, o que provocou intensa reação negativa de fãs. O CEO Swen Vincke esclareceu posteriormente que a tecnologia foi usada para “explorar coisas” e não para substituir artistas conceituais, decidindo refrear o uso de ferramentas de IA generativa no desenvolvimento de arte conceitual para garantir a originalidade.

A utilização da inteligência artificial exige diretrizes claras para garantir que os direitos autorais sejam respeitados e que a originalidade e a criatividade humana permaneçam no centro do processo. Artigos sobre implicações jurídicas da IA nos games, de abril de 2025, apontam a necessidade de clareza sobre autoria e propriedade intelectual. Para nações como a Coreia do Sul, que buscam liderar na adoção de IA com um plano bilionário de US$ 71 bilhões, de agosto de 2025, estabelecer um arcabouço regulatório robusto e programas de capacitação para seus profissionais será crucial para colher os benefícios da tecnologia sem sucumbir aos seus riscos potenciais.

A visão de Hyung-tae Kim sobre a IA como um pilar estratégico para a competitividade de nações menores no desenvolvimento de jogos sublinha uma transformação inevitável na indústria. Relatórios como o “Futuro dos Empregos 2025” do Fórum Econômico Mundial, citado pelo G1 em setembro de 2025, projetam que a IA criará novos empregos, mas exigirá adaptação e qualificação dos trabalhadores. Ao invés de ser vista como uma força disruptiva meramente substitutiva, a inteligência artificial pode redefinir os parâmetros de produtividade e inovação, especialmente para estúdios que não dispõem de vastos recursos humanos. O futuro do desenvolvimento de jogos, moldado por essa simbiose entre criatividade humana e capacidade algorítmica, exigirá não apenas avanços tecnológicos, mas também um compromisso contínuo com a formação de talentos e a ética na sua aplicação.