A sensação de que o seu corpo realmente pertence a você, algo que parece automático e inquestionável, é na verdade um processo complexo e dinâmico orquestrado pelo cérebro. Uma nova pesquisa do Karolinska Institutet, na Suécia, revelou que o ritmo cerebral, especificamente as ondas alfa, desempenha um papel crucial na construção dessa percepção fundamental de pertencimento corporal. Este estudo aprofunda a compreensão sobre como o cérebro diferencia o eu do mundo exterior, um desafio constante para a mente humana.

Publicados na revista Nature Communications em 12 de janeiro de 2026, os achados indicam que a velocidade dessas ondas cerebrais atua como um relógio interno, determinando a precisão com que o cérebro alinha informações visuais e táteis. Ritmos mais rápidos fortalecem a sensação de que uma parte do corpo é sua, enquanto ritmos mais lentos podem embaçar essa distinção, dificultando a separação entre o próprio corpo e o ambiente. A investigação, que envolveu 106 participantes, utilizou uma combinação de experimentos comportamentais, eletroencefalografia (EEG), estimulação cerebral e modelagem computacional para desvendar esse mecanismo complexo.

O foco dos pesquisadores foi entender como o cérebro integra sinais de diferentes sentidos para manter uma sensação estável de si mesmo, um conceito conhecido como senso de posse corporal. A área do cérebro responsável por esse processamento crítico é o córtex parietal, onde a frequência da atividade alfa determina a precisão com que as pessoas percebem seu corpo como próprio.

A ilusão da mão de borracha e as ondas alfa

Para explorar o senso de posse corporal de forma mais direta, os cientistas empregaram a clássica ilusão da mão de borracha, um experimento amplamente utilizado na neurociência. Nesta tarefa, uma mão falsa é posicionada à vista do participante, enquanto a mão real permanece oculta. Quando ambas são tocadas simultaneamente, muitos participantes começam a sentir a mão de borracha como parte de seu próprio corpo.

O estudo demonstrou que indivíduos com frequências de ondas alfa mais rápidas eram mais hábeis em detectar pequenas diferenças de tempo entre o que viam e o que sentiam. Seus cérebros processavam informações sensoriais com maior precisão temporal, resultando em um senso de posse corporal mais nítido e confiável. Por outro lado, participantes com frequências alfa mais lentas apresentaram uma “janela de ligação temporal” mais ampla, o que significa que seus cérebros tendiam a tratar sinais visuais e táteis como simultâneos, mesmo quando ligeiramente dessincronizados. Essa menor precisão temporal dificultava a distinção clara entre sensações relacionadas ao próprio corpo e estímulos externos.

Mariano D’Angelo, principal autor da pesquisa e pesquisador do Departamento de Neurociência do Karolinska Institutet, explicou que a equipe identificou “um processo cerebral fundamental que molda nossa experiência contínua de sermos corporificados”. Ele acrescenta que “os achados podem fornecer novos insights sobre condições psiquiátricas como a esquizofrenia, onde o senso de si é perturbado”.

Implicações para a neurociência e a tecnologia

Para confirmar a influência direta da frequência das ondas alfa, os pesquisadores utilizaram estimulação cerebral elétrica não invasiva, ajustando suavemente o ritmo alfa dos participantes. A alteração da frequência modificou a precisão com que os participantes experimentavam o senso de posse corporal e julgavam a simultaneidade dos sinais visuais e táteis. Modelos computacionais corroboraram esses resultados, mostrando que a frequência alfa afeta a precisão com que o cérebro avalia o tempo das informações sensoriais, regulando assim a percepção e contribuindo para a experiência de ter um corpo.

Henrik Ehrsson, professor do Departamento de Neurociência do Karolinska Institutet e autor sênior do estudo, destaca que as descobertas “ajudam a explicar como o cérebro resolve o desafio de integrar sinais do corpo para criar um senso de si coerente”. Ele enfatiza o potencial para “contribuir para o desenvolvimento de melhores membros protéticos e experiências de realidade virtual mais realistas”. A compreensão de como o ritmo cerebral influencia a percepção do corpo pode, de fato, revolucionar a forma como a tecnologia interage com a nossa corporeidade, tornando próteses e ambientes virtuais muito mais integrados e naturais.

Este avanço no entendimento do ritmo cerebral e percepção corporal não só lança luz sobre um dos aspectos mais intrínsecos da consciência humana, mas também oferece um roteiro para futuras inovações. Desde o aprimoramento de interfaces cérebro-máquina até o desenvolvimento de terapias para distúrbios de auto percepção, a capacidade de sintonizar o nosso relógio cerebral interno promete redefinir os limites do que significa habitar um corpo.