Pesquisadores da Universidade de Columbia finalmente desvendaram um mistério que aflige milhões de pacientes: a causa da dor muscular associada ao uso de estatinas, medicamentos essenciais para o controle do colesterol. O estudo, publicado em 15 de dezembro de 2025 no Journal of Clinical Investigation, aponta para um vazamento de cálcio dentro das células musculares como o principal culpado, oferecendo uma explicação há muito procurada para esses efeitos colaterais.

As estatinas são amplamente prescritas para reduzir o colesterol e prevenir doenças cardiovasculares, com cerca de 40 milhões de adultos nos Estados Unidos utilizando-as. No entanto, aproximadamente 10% desses pacientes desenvolvem sintomas musculares como dor, fraqueza ou fadiga, o que frequentemente os leva a abandonar o tratamento.

Apesar de alguns estudos anteriores sugerirem um forte efeito placebo em muitas queixas musculares, a nova pesquisa identifica uma base fisiológica concreta para, pelo menos, uma parcela significativa desses casos. Esta descoberta reacende a esperança de que futuras intervenções possam mitigar esses efeitos adversos, melhorando a adesão ao tratamento vital.

A mecânica da dor muscular por estatinas

A investigação minuciosa, liderada por Andrew Marks, professor e diretor do Wu Center for Molecular Cardiology na Columbia University Irving Medical Center, utilizou microscopia crioeletrônica de alta resolução. Essa técnica permitiu aos cientistas observar em detalhes atômicos como a sinvastatina, uma estatina comum, interage com as células musculares.

Os resultados mostraram que a sinvastatina se liga a dois locais específicos de uma proteína muscular crucial, o receptor de rianodina (RyR1). Essa ligação provoca a abertura de um canal na proteína, permitindo que o cálcio vaze para áreas da célula onde normalmente não deveria fluir. Esse excesso de cálcio pode enfraquecer diretamente as fibras musculares ou ativar enzimas que, gradualmente, degradam o tecido muscular, explicando a dor e a fraqueza.

Caminhos para tratamentos mais seguros

Compreender o mecanismo da dor muscular abre portas para o desenvolvimento de soluções mais eficazes. Uma das abordagens consideradas é o redesenho das estatinas, de modo que mantenham sua capacidade de baixar o colesterol, mas sem se ligar ao receptor de rianodina nas células musculares. O professor Marks já trabalha com químicos para desenvolver medicamentos com essa característica.

Outra estratégia promissora foca em interromper o vazamento de cálcio. Em experimentos com camundongos, os pesquisadores conseguiram fechar esses vazamentos induzidos por estatinas usando um medicamento experimental desenvolvido no laboratório de Marks para outras condições de fluxo anormal de cálcio. Se esses fármacos se mostrarem eficazes em doenças musculares raras, poderão ser testados para tratar as miopatias induzidas por estatinas.

Esta revelação é um passo fundamental para milhões de pessoas que dependem das estatinas para a saúde cardiovascular. Ao desvendar a base molecular da dor muscular, a ciência não apenas valida a experiência dos pacientes, mas também pavimenta o caminho para uma nova geração de tratamentos mais seguros e toleráveis, que poderão melhorar significativamente a qualidade de vida e a adesão terapêutica.