A política externa do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, baseada em esferas de influência e transações, é vista como uma ‘visão gangster’ do poder global, com profundas implicações para a estabilidade e a economia mundial. Essa abordagem pressupõe a divisão do mundo entre grandes potências, permitindo aos Estados Unidos agir com impunidade em seu ‘quintal’, um cenário que, segundo especialistas, pode alimentar instabilidade e fragmentar mercados.

No cerne dessa doutrina, está a convicção de que a nação pode operar sem restrições em sua área de influência, um modelo evidenciado por ações como o sequestro ilegal do presidente venezuelano Nicolás Maduro e as tentativas de controlar as reservas de petróleo do país. Este comportamento, embora pareça ter uma lógica, na verdade mina os interesses econômicos dos próprios Estados Unidos ao desestabilizar o cenário global.

Essa estratégia, que busca instalar regimes alinhados aos seus interesses, pode gerar uma série de consequências negativas. Em vez de fortalecer a posição americana, ela tende a criar um ambiente de imprevisibilidade e desconfiança, impactando cadeias de suprimentos e acordos comerciais que são vitais para a prosperidade global.

As consequências econômicas de uma ordem fragmentada

A fragmentação dos mercados globais é uma das consequências mais diretas dessa visão de poder. Em vez de um sistema multilateral baseado em regras, observa-se uma tendência a acordos bilaterais e esferas de influência, que podem desencadear guerras comerciais e barreiras tarifárias.

Um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2023, por exemplo, alertou para os perigos da fragmentação econômica, indicando uma perda potencial de até 7% do PIB global.

Tal cenário não apenas dificulta o comércio internacional, mas também afeta o investimento estrangeiro direto e a cooperação em questões transnacionais urgentes, como mudanças climáticas e pandemias. A busca por controle unilateral pode isolar economias e criar blocos rivais.

Isso diminui a capacidade de resposta coletiva a desafios globais. A economista Jayati Ghosh, do Project Syndicate, enfatiza que essa abordagem, longe de beneficiar os EUA, compromete seus próprios interesses econômicos ao fomentar a instabilidade.

O impacto na segurança e nas relações internacionais

Além dos riscos econômicos, a ‘visão gangster’ eleva a tensão geopolítica. A imposição de vontade através de meios coercitivos, como sanções ou intervenções, pode provocar retaliações e escaladas de conflitos. A doutrina de que cada grande potência tem seu ‘quintal’ onde pode agir impunemente é uma receita para a instabilidade regional e global.

Estudos de instituições como o Council on Foreign Relations indicam que a erosão das normas internacionais e do direito multilateral pode encorajar outros atores a perseguir interesses de forma agressiva.

Isso ocorre sem o freio de um sistema global coeso, enfraquecendo a governança e aumentando a probabilidade de crises. Os efeitos cascata afetam desde a segurança energética até os fluxos migratórios.

A adoção de uma perspectiva transacional e de esferas de influência na política externa, embora possa parecer vantajosa no curto prazo para alguns, carrega consigo o risco intrínseco de desestabilizar a ordem mundial construída ao longo de décadas.

As consequências dessa visão ‘gangster’ do poder global são vastas, abrangendo desde a fragmentação econômica até o aumento das tensões geopolíticas. Elas sugerem um futuro de maior incerteza e menor cooperação internacional. A capacidade de construir pontes e respeitar o direito internacional emerge como um pilar fundamental para a prosperidade e segurança futuras.