Cientistas da Northwestern Medicine desenvolveram um novo anticorpo capaz de reativar o sistema imunológico contra o câncer de pâncreas, uma das formas mais letais da doença. A inovação visa remover o ‘disfarce açucarado’ que permite aos tumores evadir a detecção imune, oferecendo uma nova esperança.

O câncer de pâncreas, frequentemente diagnosticado em estágio avançado, é notório por sua resistência a tratamentos convencionais e imunoterapias. Com uma taxa de sobrevida de cinco anos que pode ser tão baixa quanto 13% em alguns cenários, a busca por novas abordagens terapêuticas é urgente.

A pesquisa, que levou cerca de seis anos para ser concluída, desvendou um mecanismo crucial de evasão tumoral. A equipe da Northwestern descobriu como as células cancerígenas do pâncreas se camuflam para evitar o ataque do sistema imunológico, abrindo caminho para essa intervenção promissora.

A estratégia de camuflagem do câncer de pâncreas

Um dos grandes desafios no tratamento do câncer de pâncreas reside na sua capacidade de se esconder do sistema imunológico. As células tumorais utilizam uma tática engenhosa: revestem-se com um açúcar chamado ácido siálico, presente também em células saudáveis.

Este “revestimento açucarado” atua como um sinal de “não ataque” ao sistema imunológico. As células cancerígenas, especificamente, adicionam esse açúcar à proteína de superfície conhecida como integrina α3β1, que então se liga a um receptor nas células imunes, o Siglec-10. Essa interação engana as defesas do corpo, fazendo-as ignorar a ameaça.

Mohamed Abdel-Mohsen, professor associado de medicina na Faculdade de Medicina Feinberg da Northwestern University, descreveu a tática como um “lobo em pele de cordeiro”. A descoberta desse mecanismo oculto é fundamental para desenvolver terapias mais eficazes.

O novo anticorpo: desmascarando o tumor

Após identificar a estratégia de camuflagem, a equipe da Northwestern Medicine concentrou-se no desenvolvimento de anticorpos monoclonais capazes de bloquear esse sinal enganoso. A pesquisa culminou na criação de um anticorpo experimental que remove o disfarce açucarado do tumor.

Testes pré-clínicos em modelos animais demonstraram resultados animadores. Com o anticorpo, as células imunes voltaram a se ativar e começaram a atacar as células cancerígenas, resultando em um crescimento tumoral significativamente mais lento em comparação com camundongos não tratados.

O processo de desenvolvimento do anticorpo foi meticuloso, exigindo a triagem de milhares de hibridomas, células que produzem anticorpos, até encontrar a formulação eficaz. Os resultados foram publicados na renomada revista Cancer Research, da American Association for Cancer Research.

A próxima fase da pesquisa envolverá o refinamento do anticorpo e a preparação para ensaios clínicos em humanos. A equipe também planeja investigar a eficácia do anticorpo em combinação com quimioterapias e imunoterapias existentes, buscando otimizar o tratamento.

Este avanço representa um passo significativo na luta contra o câncer de pâncreas. Ao “acordar” o sistema imunológico para a presença do tumor, o novo anticorpo oferece uma perspectiva promissora para pacientes com uma doença historicamente difícil de tratar, abrindo caminho para terapias combinadas mais potentes e uma melhor qualidade de vida.