A política externa de Donald Trump, muitas vezes descrita como errática, revela uma busca por reconfigurar a ordem internacional para um modelo anterior à Primeira Guerra Mundial, onde os Estados Unidos priorizavam a segurança regional e uma postura global mais contida. Essa abordagem, que mescla diplomacia transacional agressiva com uma renovada guarda hemisférica ao estilo da Doutrina Monroe, levanta questões cruciais sobre o futuro do intervencionismo e das alianças globais.
O aparente abandono da construção de nações e da mudança de regime, pilares da política externa americana pós-Guerra Fria, contrasta com ações recentes, como a deposição do ditador venezuelano Nicolás Maduro. Este movimento, apesar de ser visto como uma “Doutrina Donroe” pela imprensa, reflete uma estratégia mais ampla da administração Trump, visando reverter décadas de engajamento multilateral.
Essa guinada representa um desafio significativo para a estabilidade global e as instituições que moldaram o cenário internacional desde a metade do século XX. A redefinição do papel americano pode ter implicações profundas para parceiros comerciais, alianças militares e a dinâmica de poder entre as grandes potências.
O retorno da Doutrina Monroe e a segurança regional
A reinterpretação da Doutrina Monroe é um pilar central dessa “nova velha ordem mundial”. Historicamente, a doutrina buscou proteger os interesses americanos no hemisfério ocidental, limitando a influência europeia. Sob Trump, essa premissa ganha contornos de um intervencionismo mais direto em questões regionais, como observado na Venezuela. Essa postura sugere uma priorização da segurança “em casa” em detrimento de compromissos globais mais amplos, redefinindo as expectativas de apoio e liderança dos EUA.
Analistas apontam que essa concentração regional pode ser vista como um movimento para consolidar poder e influência americana em seu entorno imediato, enquanto se desengaja de conflitos distantes e alianças onerosas. No entanto, o custo de tal mudança pode ser profundo, potencialmente criando vácuos de poder em outras regiões e testando a resiliência de acordos de segurança internacionais. A busca por um papel mais contido globalmente não implica em menor assertividade dentro da esfera de influência americana.
Implicações para o comércio e as alianças globais
A política externa de Trump também impacta diretamente o comércio internacional e a rede de alianças estabelecidas. A priorização de acordos bilaterais e a renegociação de tratados existentes, muitas vezes sob a ameaça de tarifas, sinalizam uma desconfiança nos blocos econômicos e nas organizações multilaterais. Essa abordagem transacional visa reequilibrar o que a administração considera relações desiguais, mas gera incerteza para parceiros comerciais e investidores.
A fragmentação das alianças tradicionais e a adoção de uma postura mais unilateral podem enfraquecer a capacidade de resposta global a crises como pandemias, mudanças climáticas ou ameaças à segurança cibernética. Conforme Benn Steil, em seu artigo no Project Syndicate, as recentes ações refletem um esforço para restaurar a ordem internacional que prevalecia antes da Primeira Guerra Mundial, quando a América era mais contida em suas ambições globais e mais segura em sua vizinhança, embora os custos de tal mudança pudessem ser profundos.
A “nova velha ordem mundial” de Trump representa uma ruptura substancial com a política externa americana das últimas décadas. Ao buscar uma era de maior contenção global e foco regional, a administração sinaliza uma redefinição das prioridades e responsabilidades dos Estados Unidos no cenário internacional. Os desdobramentos dessa estratégia, particularmente em relação às alianças e ao comércio, serão cruciais para a arquitetura geopolítica nas próximas décadas, exigindo adaptação e reavaliação de todos os atores globais.












