A autonomia do Federal Reserve (Fed), pilar da estabilidade econômica dos Estados Unidos e do sistema financeiro global, enfrenta um ataque sem precedentes. Uma investigação criminal, iniciada pelo Departamento de Justiça sob a administração de Donald Trump, mira Jerome Powell, presidente do banco central americano, lançando uma sombra sobre a política monetária e reacendendo o debate sobre a ingerência política em instituições vitais, conforme destacado em análises como a da Project Syndicate em 16 de janeiro de 2026.

Essa ofensiva, que Powell descreve como uma tentativa de minar a capacidade do Fed de definir taxas de juros com base em dados econômicos e não em exigências presidenciais, expõe a fragilidade da separação entre poder político e monetário. A independência do banco central é amplamente reconhecida como crucial para controlar a inflação e sustentar a confiança no dólar, elementos essenciais para a economia global. Sem essa barreira, as decisões de curto prazo ditadas por ciclos eleitorais podem comprometer o bem-estar econômico de longo prazo.

A estrutura do Federal Reserve foi meticulosamente desenhada para isolar a política monetária de pressões políticas. Governadores são nomeados para mandatos escalonados de 14 anos, atravessando diferentes governos, e a instituição é autofinanciada, não dependendo do Congresso para seu orçamento. Essa arquitetura permite ao Fed focar em seu duplo mandato de máximo emprego e estabilidade de preços, tomando decisões impopulares quando necessário, mas sempre visando a saúde econômica duradoura.

O cerco político ao Federal Reserve

A investigação criminal contra Jerome Powell, que se tornou pública em janeiro de 2026, centra-se em projetos de renovação de dois edifícios do Fed em Washington, com custos que ultrapassaram o orçamento inicial. Powell, no entanto, minimizou a ameaça de acusação penal ligada à obra, afirmando que a ação é um “pretexto” para pressionar o Fed a reduzir as taxas de juros, em linha com as demandas da administração Trump. O presidente, por sua vez, negou ter ordenado a investigação, embora tenha criticado publicamente a atuação de Powell.

Ex-presidentes do Fed, incluindo Alan Greenspan, Ben Bernanke e Janet Yellen, juntaram-se a ex-secretários do Tesouro em uma declaração conjunta, classificando a investigação como uma tentativa “sem precedentes” de minar a autonomia do banco central. Eles alertaram que o uso de ataques de natureza criminal contra autoridades monetárias é característico de países com instituições frágeis, com sérias consequências para a inflação e o funcionamento da economia. Essa disputa acirrada intensifica o debate institucional e lança dúvidas sobre a integridade do sistema, conforme observado por Jan Hatzius, economista-chefe do Goldman Sachs.

Impactos na economia e confiança global

A erosão da independência do Fed pode ter ramificações profundas, tanto para a economia americana quanto para a global. Historicamente, a intervenção política na política monetária já resultou em desastres. Na década de 1970, o presidente Richard Nixon pressionou o então presidente do Fed, Arthur Burns, a cortar os juros para impulsionar sua reeleição, resultando em um salto da inflação de 5,3% em 1970 para 11,8% em 1974. Esse precedente serve como um alerta claro dos perigos de uma política monetária submetida a imperativos políticos.

Analistas e chefes de grandes bancos centrais, como o ex-presidente do Banco Central Europeu Jean-Claude Trichet, alertam que a politização da política monetária representa um risco direto à estabilidade financeira internacional, podendo elevar a vulnerabilidade econômica, afetar a confiança dos investidores e ampliar a instabilidade nos mercados. A credibilidade do dólar, que sustenta o sistema financeiro internacional, depende da percepção de que o Fed é neutro e guiado por critérios técnicos. Uma Fed comprometida politicamente poderia abalar essa confiança, com repercussões globais.

A luta pela independência do Federal Reserve é, portanto, mais do que um embate político interno; é um teste crucial para a integridade das instituições democráticas e para a estabilidade econômica mundial. A capacidade do Fed de manter sua autonomia diante de pressões políticas será fundamental para a confiança nos mercados e para a resiliência da economia global nos próximos anos.