A deposição de Nicolás Maduro na Venezuela, por meio de uma operação militar liderada pelos Estados Unidos, ressalta a “Doutrina Trump” e sua visão de primazia dos interesses americanos no hemisfério ocidental, redefinindo a dinâmica geopolítica da região. Essa ação unilateral levanta significativas questões sobre o direito internacional e o futuro da soberania nacional.

A crise venezuelana, marcada por um colapso econômico, uma profunda crise humanitária e um impasse político prolongado, tem sido um ponto focal da política externa dos EUA por anos. A abordagem do governo Trump para a Venezuela, caracterizada por sanções rigorosas e apoio vocal à oposição, culminou na intervenção direta para remover Maduro, que os EUA consideravam um líder ilegítimo e uma ameaça à estabilidade regional.

Este evento não apenas encerra um capítulo turbulento na história venezuelana, mas também serve como um estudo de caso contundente da aplicação da Doutrina Trump. Esta filosofia de política externa, muitas vezes resumida pelo slogan “America First”, prioriza a ação unilateral e a projeção de poder para proteger o que são percebidos como interesses vitais dos EUA, mesmo que isso desafie normas diplomáticas e multilaterais estabelecidas.

As raízes da intervenção e a doutrina Trump na Venezuela

A operação que resultou na prisão de Nicolás Maduro por forças especiais dos EUA, conforme noticiado pelo www.project-syndicate.org em janeiro de 2026, representa a concretização de uma postura assertiva que vinha se desenhando há anos. A estratégia de segurança nacional de Trump via o hemisfério ocidental como uma esfera de influência direta dos EUA, onde os interesses americanos deveriam prevalecer inquestionavelmente. Essa visão permitiu uma escalada de retórica e ações que, em outras administrações, poderiam ter sido consideradas excessivamente intervencionistas.

A Doutrina Trump se distingue por sua disposição em desafiar o status quo, ignorar instituições internacionais quando estas são vistas como entraves e empregar ferramentas de poder, incluindo a força militar, para atingir objetivos específicos. No caso da Venezuela, o objetivo declarado era restaurar a democracia e aliviar o sofrimento de seu povo, mas a forma como isso foi alcançado sublinha a preferência por soluções unilaterais. Esse movimento ecoa momentos da história americana na América Latina, onde intervenções diretas foram justificadas pela necessidade de proteger a segurança e os interesses econômicos dos EUA, como detalha o Council on Foreign Relations.

Analistas apontam que a decisão de intervir militarmente pode ter sido motivada por uma combinação de fatores: a persistência do regime de Maduro apesar das sanções, a crescente influência de atores externos como Rússia e China na região, e a percepção de que a instabilidade venezuelana representava uma ameaça direta à segurança hemisférica. A ação, portanto, não foi apenas sobre a Venezuela, mas também sobre a reafirmação do poder dos EUA em seu “quintal” geopolítico.

Implicações globais e o futuro da soberania após a Doutrina Trump

A remoção de Maduro e a aplicação da Doutrina Trump na Venezuela têm reverberações que vão muito além das fronteiras venezuelanas. A comunidade internacional observou atentamente. Enquanto alguns países podem ter saudado a mudança de regime como um alívio para a crise humanitária, outros, especialmente potências como Rússia e China, provavelmente interpretarão o movimento como uma confirmação de que os EUA operam sob uma lógica de esferas de influência. Segundo Richard Haass, do Project Syndicate, essas nações podem até “acolher” essa visão, pois ela legitima suas próprias ambições em suas respectivas regiões de interesse.

O impacto sobre as normas internacionais e as instituições multilaterais é significativo. A premissa da não-intervenção nos assuntos internos de um Estado soberano, um pilar do direito internacional desde a Paz de Vestfália, é seriamente desafiada por ações como essa. Isso pode abrir precedentes perigosos, encorajando outras potências a justificar intervenções similares em suas próprias esferas de influência, potencialmente levando a um mundo mais fragmentado e menos regulado por acordos globais. A BBC News tem coberto extensivamente as tensões regionais e as posições de diferentes atores globais.

Para a Venezuela, o fim da era Maduro é, como descrito por Haass, “o fim do começo”. O país agora enfrenta o enorme desafio de reconstruir suas instituições democráticas, revitalizar sua economia devastada e curar as profundas divisões sociais. A transição pós-intervenção será complexa, exigindo um plano de longo prazo que vá além da simples mudança de liderança e aborde as causas profundas da instabilidade venezuelana, sem a garantia de que a influência externa dos EUA não continuará a moldar seu futuro.

A aplicação da Doutrina Trump na Venezuela é um marco que cristaliza uma abordagem de política externa focada na projeção de poder e na defesa intransigente dos interesses nacionais. Este evento não só alterou a trajetória de uma nação sul-americana, mas também ressaltou a tensão entre a soberania nacional e a intervenção externa, deixando um legado complexo para as relações internacionais e para a própria Venezuela, que agora busca seu caminho em um cenário geopolítico redefinido.