A União Europeia, muitas vezes alvo de ceticismo e críticas externas, como as de figuras políticas americanas, revela uma força e resiliência que seus próprios líderes podem estar subestimando. Em vez de declinar, o projeto europeu alcançou um sucesso notável, superando as expectativas mais otimistas de seus fundadores, conforme apontado em uma análise recente de Alberto Alemanno para o Project Syndicate.

Ao longo das últimas três décadas, a UE edificou um sistema político e regulatório capaz de moldar a concorrência global e unir grande parte do continente. Contudo, essa percepção interna equivocada pode levar a um enfraquecimento do modelo social e econômico que tornou tais conquistas possíveis. O cenário atual, com inflação em queda e mercado de trabalho robusto, contrasta com uma narrativa de fragilidade.

A resiliência econômica em números

A economia da União Europeia projeta um crescimento gradual. As previsões da Comissão Europeia indicam uma expansão do PIB de 1,0% para a UE em 2024 e 1,6% em 2025, enquanto a área do euro deverá crescer 0,8% e 1,4%, respectivamente. Essa recuperação é impulsionada por um mercado de trabalho forte e pelo dinamismo do consumo privado. A inflação, por sua vez, segue uma trajetória descendente, aproximando-se da meta de 2% do Banco Central Europeu (BCE).

O mercado de trabalho europeu mantém-se robusto, com a taxa de desemprego na UE atingindo um mínimo histórico de 6,0% em março de 2024, e 5,9% em outubro do mesmo ano. Portugal, por exemplo, registrou uma queda no desemprego para 5,7% em novembro de 2025, o menor valor desde 2002. Esses dados, divulgados por instituições como o Eurostat e o BCE, demonstram uma base econômica sólida, apesar da estagnação da indústria em alguns períodos e dos desafios de investimento.

O pilar social e os desafios futuros

A Europa destaca-se globalmente pelos seus elevados padrões de proteção social e bem-estar, com gastos em benefícios sociais que alcançaram 27,3% do PIB da UE em 2024, segundo estimativas do Eurostat. Este modelo social, focado em emprego, crescimento sustentável e coesão, é um pilar da identidade europeia e um dos objetivos fundamentais da União.

No entanto, a União Europeia enfrenta desafios consideráveis, incluindo tensões geopolíticas, como a guerra na Ucrânia, e uma crescente fragmentação política interna. O Fundo Monetário Internacional (FMI) destaca a necessidade de impulsionar a produtividade, lidar com o rápido envelhecimento da população e garantir a segurança energética. Aprofundar o mercado único e assegurar consolidações fiscais são cruciais para a resiliência da economia europeia. A liderança da UE em sustentabilidade e inovação digital, no entanto, oferece caminhos para fortalecer sua competitividade a longo prazo.

Apesar dos obstáculos e da percepção externa que por vezes ignora seus avanços, a força da Europa reside em seu sistema regulatório coeso, sua economia em recuperação e seu compromisso com um modelo social robusto. É imperativo que os líderes europeus reconheçam essa base sólida e invistam em políticas que reforcem, em vez de minar, os alicerces de um projeto que, contra todas as probabilidades, provou ser extraordinariamente bem-sucedido.