Uma geleira chave na Groenlândia, a 79°N, está rachando e drenando rapidamente devido a um lago de degelo, um fenômeno intensificado nos últimos anos que levanta preocupações urgentes sobre a estabilidade glacial e o clima global.
O manto de gelo da Groenlândia, a segunda maior massa de gelo do planeta, é um barômetro crítico das mudanças climáticas. Desde meados dos anos 90, o aquecimento atmosférico tem provocado a formação de lagos de degelo em sua superfície. Esses corpos d’água, antes incomuns, agora se tornaram catalisadores de uma dinâmica glacial alarmante, com implicações que se estendem muito além das paisagens árticas.
A aceleração do degelo na região do Ártico, que aquece quatro vezes mais rápido que a média global, intensifica a perda de gelo em toda a ilha. A desestabilização de geleiras como a 79°N não é apenas um espetáculo natural, mas um sinal direto da pressão que o planeta exerce sobre seus sistemas mais vulneráveis, com cientistas questionando se esses processos podem se tornar irreversíveis.
O drama do 79°N: rachaduras e a dinâmica do degelo
A geleira 79°N, também conhecida como Nioghalvfjerdsfjorden, é a maior língua de geleira flutuante da Groenlândia. Um estudo recente, divulgado pela ScienceDaily em 5 de janeiro de 2026, revela que um lago de degelo que se formou em sua superfície em meados da década de 1990 tem drenado em explosões súbitas e dramáticas. Essa água escoa através de rachaduras e poços de gelo verticais, conhecidos como moulins.
Esses eventos de drenagem aceleraram significativamente nos últimos anos, com quatro dos sete maiores ocorrendo apenas nos últimos cinco anos. A glaciologista Prof. Angelika Humbert, do Alfred Wegener Institute (AWI), observou a formação de estranhos padrões de fratura triangulares e o rápido inundamento da base da geleira. Algumas dessas drenagens até mesmo empurraram o gelo para cima, criando uma espécie de “bolha” sob a geleira.
A formação de moulins ocorre quando rachaduras na superfície se enchem de água, que então as força a atravessar o gelo, agindo como um lubrificante na base da geleira e acelerando seu movimento em direção ao mar. Embora o gelo glacial se comporte de forma elástica, formando rachaduras, ele também flui lentamente, permitindo que esses canais se fechem gradualmente. Contudo, os dados mostram que os moulins triangulares e seus sistemas de canais podem permanecer detectáveis por anos.
Implicações globais e o futuro incerto da Groenlândia
A Groenlândia é o maior contribuinte individual para o aumento do nível do mar global, perdendo bilhões de toneladas de gelo anualmente. Entre 1985 e 2022, mais de mil gigatoneladas de gelo foram perdidas, o equivalente a uma área de mais de cinco mil quilômetros quadrados. Essa perda acelerada é uma ameaça direta às comunidades costeiras em todo o mundo.
As projeções indicam que o derretimento da Groenlândia pode adicionar entre 5 cm e 33 cm ao nível global do mar até 2100, um valor que se soma ao degelo da Antártida e à expansão térmica dos oceanos. A totalidade do manto de gelo da Groenlândia, se derretida, elevaria o nível do mar em cerca de 7,2 metros, um cenário catastrófico para muitas cidades costeiras e nações insulares.
Além da elevação do nível do mar, a enorme quantidade de água doce liberada no Atlântico Norte pode alterar a salinidade do oceano e desacelerar a Corrente do Golfo. Essa corrente é vital para regular o clima na Europa e América do Norte, e sua interrupção poderia levar a invernos mais rigorosos e padrões climáticos imprevisíveis globalmente.
O monitoramento contínuo, utilizando satélites, radares e modelos viscoelásticos, é crucial para entender a dinâmica dessas geleiras. A questão levantada pelos cientistas sobre a capacidade do 79°N de retornar ao seu ritmo sazonal anterior ressalta a urgência de ações climáticas. A estabilidade das geleiras da Groenlândia é um elo fundamental na estabilidade climática global, e seu futuro é um reflexo direto das escolhas energéticas e ambientais da humanidade.











