Um estudo recente aponta que o sangue de camundongos mais jovens pode ter um efeito protetor contra os danos cerebrais associados à doença de Alzheimer, enquanto o sangue de animais mais velhos parece acelerar a degeneração. Publicada no jornal Aging-US, a pesquisa, conforme divulgado pelo ScienceDaily em 10 de janeiro de 2026, sugere que fatores circulantes na corrente sanguínea influenciam diretamente a progressão desta devastadora condição neurodegenerativa.
A doença de Alzheimer representa o principal tipo de demência em escala global e um dos maiores desafios para os sistemas de saúde pública. As novas descobertas reforçam a ideia de que o que circula em nosso sistema circulatório pode ter um papel crucial no desenvolvimento da doença, abrindo novas perspectivas para intervenções terapêuticas focadas na interface sangue-cérebro.
Cientistas do Instituto Latinoamericano de Salud Cerebral (BrainLat) na Universidad Adolfo Ibáñez, em colaboração com o MELISA Institute e a University of Texas Health Science Center at Houston, realizaram experimentos detalhados com camundongos para investigar essa conexão. Seus resultados, publicados no jornal Aging-US, indicam uma complexa interação entre o envelhecimento do sangue e a saúde cerebral, com implicações significativas para a compreensão e o tratamento do Alzheimer.
O papel do sangue na progressão do Alzheimer
A doença de Alzheimer é caracterizada pelo acúmulo da proteína beta-amiloide (Aβ) no cérebro, formando placas que perturbam a comunicação neuronal e causam danos progressivos ao tecido cerebral. Embora a Aβ seja produzida no cérebro, pesquisas recentes indicam sua presença também na corrente sanguínea, levantando questões sobre a influência de fatores sanguíneos na evolução da doença.
Para explorar essa hipótese, os pesquisadores utilizaram camundongos transgênicos Tg2576, um modelo amplamente empregado em estudos de Alzheimer. Durante 30 semanas, esses animais receberam infusões semanais de sangue de doadores jovens ou idosos. O objetivo era determinar se os componentes sanguíneos poderiam afetar o acúmulo de amiloide no cérebro, bem como o desempenho da memória e o comportamento.
A Dra. Claudia Durán-Aniotz, do BrainLat, destacou a importância de olhar além do cérebro. Ela explicou que este trabalho colaborativo reforça a importância de entender como fatores sistêmicos condicionam o ambiente cerebral e impactam diretamente mecanismos que promovem a progressão da doença.
A demonstração de que sinais periféricos derivados do sangue envelhecido podem modular processos centrais na patofisiologia do Alzheimer abre novas oportunidades para o estudo de alvos terapêuticos focados no eixo sangue-cérebro.
Implicações moleculares e futuras terapias
A equipe de pesquisa avaliou o desempenho cognitivo dos camundongos e a acumulação de placas amiloides. Uma análise proteômica detalhada do tecido cerebral identificou mais de 250 proteínas com níveis de atividade alterados.
Muitas dessas proteínas estão envolvidas na função sináptica, sinalização endocanabinoide e regulação de canais de cálcio, oferecendo possíveis explicações para as diferenças observadas na saúde cerebral e no comportamento.
O MELISA Institute desempenhou um papel crucial na análise desses dados proteômicos complexos. Mauricio Hernández, especialista em proteômica do instituto, mencionou o desafio técnico de gerar dados de alta qualidade em uma matriz complexa como o plasma.
Ele afirmou: “Graças ao nosso equipamento de última geração, estamos orgulhosos de ter contribuído para a produção de um artigo científico robusto e de alta qualidade”.
Esses resultados ampliam as evidências de que fatores circulantes no sangue podem impactar diretamente o curso de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.
Ao identificar como esses sinais sanguíneos influenciam o cérebro, os cientistas podem descobrir novos alvos de tratamento e desenvolver estratégias para retardar ou prevenir a progressão da doença.
Futuras pesquisas focarão em identificar os fatores específicos envolvidos e determinar se podem ser alvo de forma segura em pessoas.
A pesquisa sobre a influência do sangue jovem no Alzheimer em camundongos representa um avanço significativo na compreensão da doença. Ao deslocar parte do foco do cérebro para o sistema circulatório, os cientistas abrem um novo e promissor caminho para o desenvolvimento de terapias inovadoras.
A identificação desses fatores sanguíneos e a exploração de como manipulá-los podem, em breve, oferecer esperança para milhões de pessoas afetadas pelo Alzheimer, transformando o modo como abordamos esta complexa condição.











