A inteligência artificial (IA) avança para transformar radicalmente o universo do conteúdo, abrangendo desde a publicidade e a literatura até o cinema e o jornalismo. Este movimento, que se desenha com velocidade, promete ser simultaneamente disruptivo e empolgante, trazendo consigo uma onda de criação e, inevitavelmente, de destruição. Segundo Charles Ferguson, em artigo para o Project Syndicate, Hollywood é apenas um exemplo de como a tecnologia causará impactos sociais e econômicos profundos, a menos que seja gerida com cautela.
Essa reconfiguração tecnológica não se restringe a um setor. A escrita de ficção, a fotografia comercial, o rádio, a música e, de forma mais acentuada, o jornalismo e os veículos de notícias tradicionais enfrentam uma reavaliação similar. Em 2025, o uso de IA generativa deve impulsionar uma mudança contínua na forma como o público se engaja com o conteúdo em diversas plataformas, desde a TV e o streaming até as mídias sociais, apresentando tanto oportunidades quanto desafios.
A inteligência artificial no cerne da criação de conteúdo
No setor audiovisual, a IA já se destaca como uma aliada poderosa, transformando processos de produção e abrindo novas possibilidades criativas. Ela atua na criação de roteiros, analisando milhares de textos para detectar padrões e gerar histórias envolventes, o que otimiza tempo e oferece novas abordagens. A edição de vídeo, antes laboriosa, ganha eficiência com algoritmos de aprendizado profundo que identificam cenas, classificam conteúdos e sugerem cortes e transições.
Ferramentas de IA também aprimoram efeitos especiais, permitindo a criação de elementos visuais mais realistas e, em alguns casos, o rejuvenescimento de atores, como visto no filme “Here”. Além disso, a personalização de conteúdo é impulsionada pela IA, que analisa o comportamento do espectador para recomendar filmes, séries e músicas, aumentando o engajamento.
No jornalismo, a automação de notícias por IA é uma realidade. Softwares baseados em processamento de linguagem natural geram textos informativos a partir de dados estruturados, cobrindo resultados esportivos ou balancetes financeiros. No entanto, essa automação também levanta questões sobre a credibilidade. Segundo o Instituto Reuters para Estudos de Jornalismo, a IA generativa ameaça “derrubar a indústria de notícias” ao oferecer formas mais eficientes de acessar e selecionar informações em larga escala, enquanto influenciadores ganham terreno.
Desafios éticos e a busca por credibilidade em um cenário de IA
A ascensão da inteligência artificial na mídia, embora repleta de promessas, traz consigo uma série de dilemas éticos e práticos. A capacidade da IA de criar conteúdo falso, mas convincente, como vídeos e áudios, continua a levantar sérias questões sobre a confiabilidade das informações. Em janeiro de 2026, a Forbes Brasil destacou o “avanço do lixo de IA”, evidenciando como a facilidade de produção e disseminação de conteúdos artificiais multiplica o falso e confunde o público.
Outra preocupação latente é a questão dos direitos autorais. Com a IA generativa assumindo um papel crescente na criação de músicas, códigos e vídeos, surge a complexa pergunta: quem é o autor de uma obra criada por uma máquina? No Brasil, a legislação atual define obras intelectuais como “criações do espírito” de uma pessoa física, o que dificulta a atribuição de autoria à IA. A reprodução de obras protegidas para treinamento de modelos de IA também é um ponto controverso.
O impacto no mercado de trabalho é igualmente significativo. Embora a IA otimize e automatize tarefas repetitivas, liberando profissionais para atividades que exigem criatividade e pensamento crítico, a perspectiva de substituição de postos de trabalho gera apreensão. Para navegar neste cenário, a adaptação e o desenvolvimento de “power skills” humanas, como análise contextual e tomada de decisão, tornam-se essenciais.
A inteligência artificial está inegavelmente remodelando o panorama da mídia, prometendo eficiência e inovação sem precedentes. No entanto, o verdadeiro desafio reside em equilibrar o avanço tecnológico com a responsabilidade ética e social. A colaboração entre humanos e máquinas, aliada à valorização de habilidades intrinsecamente humanas, será crucial para garantir que esta “tomada de mídia” pela IA resulte em um futuro mais rico e confiável para todos.












