A busca por financiamento no desenvolvimento de videogames nunca foi simples, mas nos últimos anos, tornou-se um labirinto complexo, especialmente para projetos que almejam investimentos acima de US$ 1 milhão. A era pós-COVID trouxe uma reversão na extravagância de publishers e investidores, que agora demonstram maior cautela. Este cenário é vivenciado por Brooke Burgess, criador do aguardado jogo Fallen, que busca cerca de US$ 1,5 milhão para dar vida à sua visão.

Editores como a Devolver Digital e 11-Bit Studios têm direcionado seu foco para títulos menores, uma estratégia que visa mitigar riscos. Nigel Lowrie, co-fundador da Devolver, destacou em entrevista ao GamesIndustry.biz que menos investimento em jogo permite explorar ideias mais “fora da caixa”, reduzindo o risco tanto para o publisher quanto para o desenvolvedor.

A tendência subjacente aponta para um modelo de “tiro de escopeta”, onde publishers investem pequenas quantias em um número maior de “micro indies”, na esperança de que um deles alcance um sucesso estrondoso, como Balatro. Brooke Burgess reconhece essa abordagem, afirmando que a maioria dos investidores adota essa estratégia.

O cenário atual do investimento em games

Apesar de participar de eventos de pitch, como o DevGAMM Lisbon em novembro, e receber feedback positivo, Burgess ainda não conseguiu fechar um acordo para Fallen. Ele relata que, embora o interesse em seu projeto seja notável, a maioria dos potenciais investidores se sente desconfortável com qualquer valor acima de US$ 500 mil.

Essa relutância contrasta com o crescimento geral da indústria de games, que, segundo a consultoria Newzoo, deve atingir US$ 188,8 bilhões em 2025, impulsionada principalmente por jogos mobile e de console. No entanto, o desafio do financiamento para jogos independentes com orçamentos mais robustos persiste, com a saturação de conteúdo e as dificuldades na aquisição de público sendo citadas como obstáculos chave por executivos da indústria.

A situação de Burgess reflete um problema maior enfrentado por muitos desenvolvedores independentes. Um relatório da Aream & Co. para 2025 aponta que, embora o mercado de games mostre otimismo nos gastos do consumidor, os custos crescentes de desenvolvimento e a incerteza macroeconômica geram cautela nos investidores.

Fallen e os desafios de uma visão ambiciosa

Fallen se apresenta como uma mistura de combate e exploração, inspirado em títulos como Hyper Light Drifter e Tunic. O jogo, que coloca uma anjo chamada Astra no inferno para desvendar uma conspiração sobre sua própria construção, questiona a natureza do bem e do mal, oferecendo escolhas morais que afetam a jogabilidade.

O orçamento de US$ 1,5 milhão, considerado razoável por Burgess para uma equipe pequena trabalhando por cerca de dois anos e meio, cobrindo talentos adicionais em arte, localização e marketing, ainda é um ponto de discórdia. Uma preocupação dos investidores reside no fato de ser a primeira vez de Burgess na cadeira de diretor, apesar de sua vasta experiência na indústria, incluindo passagens pela EA nos anos 90 como produtor e anos como consultor narrativo.

Burgess tem buscado financiamento privado e publishers ativamente por meses, mas os acordos ainda não se concretizaram. Ele observa que o mercado parece seguir o “zeitgeist”, buscando o próximo “open world” ou “souls-like”, o que dificulta a captação para projetos que, embora inovadores, não se encaixam nas tendências dominantes.

A resiliência é fundamental neste cenário. Enquanto o mercado brasileiro de games, por exemplo, mostra um crescimento robusto e perspectivas de receita de US$ 2,8 bilhões até 2026, conforme dados da PwC, o desafio para projetos com orçamentos maiores, como Fallen, reside em encontrar investidores dispostos a assumir riscos em um ambiente de maior aversão. A busca por um equilíbrio entre a visão criativa e a viabilidade comercial continua sendo a maior batalha para criadores como Brooke Burgess.