Após anos de desenvolvimento promissor, a inteligência artificial (IA) parece trilhar um caminho de monetização cada vez mais alinhado ao das redes sociais e buscadores tradicionais. Gigantes da tecnologia agora integram a publicidade em IA diretamente em seus chatbots, transformando a forma como interagimos com essas ferramentas e levantando questões cruciais sobre a manipulação do usuário.

Essa guinada estratégica, notadamente observada em plataformas como ChatGPT da OpenAI e o Modo IA do Google, sinaliza uma corrida para capitalizar a atenção do consumidor. Inicialmente, a IA parecia evitar a consolidação sob poucas empresas e a exploração da atenção do usuário para anúncios, mas o cenário mudou drasticamente nos últimos dezoito meses, como apontado pela Fast Company.

A promessa é de uma transição natural entre a busca por informações e a conversão, com anúncios contextuais e úteis. Contudo, essa evolução coloca em xeque a confiança do público e a própria integridade das respostas geradas pela tecnologia, ecoando o modelo de negócios que sustentou o império de publicidade do Google.

A expansão da publicidade em IA nos chatbots

A entrada agressiva da publicidade em IA no ecossistema dos chatbots é uma realidade consolidada. O Google já introduziu anúncios em seu “Modo IA” para busca, explorando o que chama de “Agentic Commerce”. Esse modelo permite que anunciantes exibam ofertas e cupons quando o sistema identifica uma forte intenção de compra durante a interação do usuário. A expectativa é que essa expansão ganhe escala ao longo de 2026.

A OpenAI, por sua vez, também avalia a introdução de publicidade no ChatGPT para diversificar suas fontes de receita e sustentar os altos custos de infraestrutura. Embora o CEO Sam Altman tenha considerado a combinação de anúncios e IA “inquietante” no passado, ele agora defende que a publicidade pode ser implantada de forma a preservar a confiança do usuário, com anúncios claramente marcados e sem influenciar as respostas da IA.

Outros players do mercado seguem a mesma tendência. A Perplexity, empresa de busca com IA, já experimenta com anúncios em suas ofertas. A Microsoft integrou publicidade ao seu Copilot, e o chatbot Rufus da Amazon também apresenta anúncios. Essa movimentação generalizada sugere que o modelo de monetização baseado em publicidade, com sua capacidade de coletar e utilizar dados comportamentais do consumidor, é o futuro iminente da inteligência artificial.

Os desafios éticos da monetização e a privacidade do usuário

A proliferação da publicidade em IA traz consigo um conjunto complexo de desafios éticos, especialmente no que tange à privacidade e à potencial manipulação do comportamento do usuário. A personalização de anúncios, embora vantajosa para as empresas, depende da coleta massiva de dados, como histórico de navegação, compras e informações demográficas, gerando perfis detalhados dos consumidores.

Especialistas em segurança e cientistas de dados expressam preocupação de que as empresas de IA possam lucrar manipulando o comportamento de seus usuários em benefício de anunciantes e investidores. A falta de transparência sobre como os algoritmos tomam decisões e o risco de vieses algorítmicos podem levar a campanhas discriminatórias ou excludentes, minando a confiança do público.

A manutenção da confiança é um pilar fundamental. Empresas como a OpenAI têm o desafio de garantir que a publicidade não comprometa a objetividade das respostas, um elemento central para a credibilidade do ChatGPT. A regulamentação ainda é incipiente nesse campo, mas leis de proteção de dados como a LGPD no Brasil e a GDPR na Europa já impõem regras rigorosas sobre a coleta e o uso de informações pessoais, exigindo um compromisso contínuo com a ética e a conformidade.

A transição dos chatbots de IA para modelos impulsionados por publicidade é um marco inevitável na evolução tecnológica e econômica. Embora prometa novas fontes de receita e experiências de usuário mais personalizadas, essa mudança exige vigilância constante. É imperativo que o desenvolvimento da IA seja guiado por princípios éticos robustos, garantindo a transparência no uso de dados e a proteção da privacidade, para que a inovação sirva ao benefício público e não se torne um mero motor de manipulação.