Cientistas da Universidade de Aarhus revelaram que os blocos construtores essenciais da vida, como os precursores de proteínas, podem se formar nas condições extremas do espaço profundo, desafiando a noção de que a química complexa da vida se inicia apenas em planetas. A pesquisa sugere que aminoácidos simples se ligam em peptídeos na poeira interestelar, aumentando a probabilidade de ingredientes vitais estarem espalhados pelo universo. Publicado em 21 de janeiro de 2026, o estudo redefine nossa compreensão sobre a origem da vida.

Por décadas, a comunidade científica acreditava que apenas moléculas muito simples poderiam existir nas vastas e gélidas nuvens de poeira entre as estrelas. A suposição era que a química mais complexa, necessária para a vida, só se desenvolveria muito mais tarde, em ambientes planetários. Contudo, esta nova investigação, detalhada em um artigo da ScienceDaily, subverte essa perspectiva.

As implicações são profundas. Se os elementos fundamentais para a vida podem surgir em nuvens cósmicas, eles estariam disponíveis para serem “semeados” em planetas recém-formados. Isso multiplicaria exponencialmente as chances de encontrar vida em outros cantos do cosmos, pois as condições para a formação desses blocos seriam muito mais comuns do que se pensava.

Recriando o ambiente interestelar

Para chegar a essas conclusões surpreendentes, pesquisadores da Universidade de Aarhus e de um centro de pesquisa europeu na Hungria (HUN-REN Atomki) recriaram em laboratório as condições severas do espaço interestelar. Dentro de uma câmara especialmente projetada, eles replicaram o ambiente de nuvens de poeira cósmica, caracterizado por temperaturas de aproximadamente -260°C e um vácuo ultra-alto, onde as partículas de gás são constantemente removidas.

Sob a liderança dos cientistas Sergio Ioppolo e Alfred Thomas Hopkinson, a equipe estudou o comportamento de partículas expostas a radiação simulada, espelhando o que ocorre no espaço real. “Já sabemos, de experimentos anteriores, que aminoácidos simples, como a glicina, se formam no espaço interestelar. Mas estávamos interessados em descobrir se moléculas mais complexas, como peptídeos, se formam naturalmente na superfície de grãos de poeira antes de participarem da formação de estrelas e planetas”, explica Sergio Ioppolo.

De aminoácidos a precursores de proteínas

Peptídeos são cadeias curtas formadas pela ligação de aminoácidos individuais. Quando múltiplos peptídeos se unem, eles dão origem às proteínas, moléculas vitais para a vida como a conhecemos. Identificar onde e como esses precursores proteicos se originam é um passo crucial para compreender o surgimento da vida.

Para testar esse processo, os pesquisadores colocaram glicina dentro da câmara e a expuseram a raios cósmicos simulados usando um acelerador de íons. Eles então analisaram as reações químicas subsequentes. “Vimos que as moléculas de glicina começaram a reagir umas com as outras para formar peptídeos e água. Isso indica que o mesmo processo ocorre no espaço interestelar”, afirma Alfred Thomas Hopkinson. “Este é um passo em direção à criação de proteínas em partículas de poeira, os mesmos materiais que mais tarde formam planetas rochosos.”

Essa descoberta sugere que as nuvens de poeira formadoras de estrelas funcionam como verdadeiras “fábricas químicas”, capazes de produzir moléculas complexas que são os alicerces da vida. Essa compreensão desafia a visão anterior de que tais moléculas só surgiriam em estágios avançados da formação planetária, expandindo as possibilidades para a astrobiologia.

À medida que as nuvens de poeira interestelar colapsam e dão origem a estrelas e planetas, esses pequenos blocos construtores químicos podem ser entregues a mundos rochosos recém-formados. Se esses planetas estiverem na zona habitável de suas estrelas, a probabilidade de a vida emergir é significativamente maior. Embora ainda não saibamos exatamente como a vida começou, pesquisas como esta demonstram que muitas das moléculas complexas necessárias para a vida são criadas naturalmente no espaço.