O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, confrontou publicamente uma ameaça de indiciamento criminal do Departamento de Justiça dos EUA (DOJ), uma medida que ele classifica como sem precedentes e parte de uma campanha de pressão política para influenciar a política monetária. A revelação, feita em 15 de janeiro de 2026, conforme noticiado pelo Project Syndicate, acende um alerta sobre a independência do Fed e suas implicações para a economia global.

A investigação do DOJ, focada no depoimento de Powell sobre reformas em edifícios do Fed, é vista pelo presidente do Banco Central americano como um pretexto. Ele argumenta que o objetivo real é minar a capacidade da instituição de definir as taxas de juros com base em dados econômicos, em vez de preferências presidenciais.

Este embate institucional ressoa com momentos críticos da história americana, onde a autonomia do banco central foi testada. A independência do Fed é crucial para a estabilidade de preços, controle da inflação e credibilidade do país no cenário financeiro internacional, protegendo a economia de ciclos políticos de curto prazo.

Lições da história: entre a firmeza e a capitulação

A história do Federal Reserve oferece exemplos claros da importância da sua independência. Marriner S. Eccles, presidente do Fed entre 1934 e 1948, demonstrou essa resiliência ao resistir às pressões do presidente Harry Truman. Truman buscava financiar a Guerra da Coreia a baixo custo, exigindo taxas de juros baixas, mas Eccles manteve-se firme, defendendo a política monetária contra a interferência política.

Em contraste, a década de 1970 ilustra os perigos da submissão política. O então presidente do Fed, Arthur Burns, cedeu às pressões do presidente Richard Nixon para manter as taxas de juros baixas antes da eleição de 1972, num ambiente já inflacionário. Essa capitulação é amplamente citada como um fator que contribuiu para a “estagflação” – alta inflação e crescimento estagnado – que assolou a economia americana por anos.

A encruzilhada atual e o futuro da autonomia do Fed

A postura de Jerome Powell, que classificou a ação do DOJ como uma violação da fronteira entre política e política monetária, reflete a gravidade do momento. A ameaça de acusações criminais, sem precedentes, suscita preocupações sobre se o Fed poderá continuar a tomar decisões imparciais baseadas em evidências econômicas.

A comunidade financeira internacional tem reagido com cautela. Líderes de bancos centrais globais, incluindo Gabriel Galípolo do Banco Central do Brasil, emitiram declarações conjuntas em apoio à independência do Fed, sublinhando que a erosão da autonomia pode elevar a vulnerabilidade econômica e afetar a confiança dos investidores. Essa solidariedade reforça a percepção de que a independência do Fed é um pilar da estabilidade financeira global.

O cenário atual, com a investigação pairando sobre Powell enquanto seu mandato se aproxima do fim e a inflação nos EUA permanece acima da meta de 2%, destaca a tensão entre a política e a economia. A capacidade do Federal Reserve de dizer ‘não’ à pressão política é, em última análise, um teste à sua credibilidade e à saúde econômica de longo prazo dos Estados Unidos e do mundo.